A apatia dos cigarros mentolados

Vozes · Conto

O despertador tocou, invadindo o ambiente com um ruído estridente, agudo e perturbador. Perto da janela, os canários cantavam como de costume. Os raios de um sol forte e brilhante entravam pelas frestas da janela, irradiando uma luz que muitos tomariam como presságio de um bom dia. Mas não Marina. Não seria um bom dia, definitivamente.

Acordou sem querer acordar. Desligou o despertador com vontade de atirá-lo contra a parede, mas não o fez: já havia atirado e quebrado muitas coisas na noite anterior.

Amaldiçoou o sol, o vento fresco da manhã e a música dos belos canários que outrora tanto amava. A cara inchada denunciava a dor de quem chorara até cair no sono. Tivera pesadelos vívidos, nos quais revivia, de inúmeras formas, o que acontecera na noite anterior.

Levantou-se de forma automática, apática, como se viver aquele dia fosse uma obrigação. E, de certa forma, era. Lavou o rosto, escovou os dentes, mas não tinha forças para tomar um banho revigorante — não, ela não queria nada que a despertasse para aquele dia. Sem fome, tomou o café do dia anterior, frio e amargo. Naquela manhã, pareceu adequado.

Fumou seu cigarro mentolado — uma fumante de cigarros mentolados, que patifaria —, pensou, menosprezando o próprio vício. Deparou-se com dois maços de cigarros reduzidos a bitucas em um cinzeiro improvisado que transbordava. Desde que havia sucumbido novamente ao vício, aquela era a primeira vez que fumava tanto. Sem fome, um pensamento lhe invadiu: “Não preciso comer. Tenho os cigarros.”

Olhou para o relógio. Óbvio: mais uma vez, estava atrasada. Trocou rapidamente de roupa, calçou o que estava aos pés da cama, penteou o cabelo com a raiva que sentia e passou um batom qualquer. Estava sem forças para colocar a sua máscara maquiada.

Correu pelo quarteirão e pegou o ônibus exatamente na hora em que ele parava no ponto. Estava vazio. Que sorte! Fez o trajeto sem os fones e sem a música de costume. A música que era o seu combustível de vida agora parecia apenas um desperdício de tempo, pensamentos e sentimentos. Tinha raiva até de sua playlist, feita com tanto cuidado e apreço semanas antes.

Desceu do ônibus e andou os três quarteirões de sempre para chegar ao trabalho. Entrou no prédio, passou o crachá e subiu os quatorze andares em um elevador cheio de pessoas presas aos celulares, distantes e medíocres. Marina odiava pessoas e, naquele dia, odiava ainda mais.

Passou por entre as mesas do escritório, balbuciando um bom-dia automático, sem olhar para os colegas. Sentou-se à sua mesa, ligou o computador e deparou-se com o memorando do chefe solicitando relatórios até as 18h. “Maldito, sempre pedindo tudo com urgência e em cima da hora.” Marina não aguentava mais o chefe sem noção, que parabenizava com um mero tapinha nas costas quando as metas eram cumpridas.

Olhou para o celular: nenhuma mensagem. Um vazio invadiu seu peito com a lembrança das manhãs cheias de mensagens. Como duas pessoas conseguiam ter tanto assunto em apenas o intervalo de uma noite de sono?

Mas era passado, um doloroso passado que preferia esquecer, mas não conseguia. Lembrou-se dos copos, pratos e porta-retratos quebrados, dos cacos de vidro ainda no chão, restos de uma explosão incontrolável de dor e raiva. Sim, teria que recolher os cacos quando chegasse. Mas o que faria com seus outros cacos? Talvez fosse melhor também recolhê-los e jogá-los fora.

Imersa em si mesma, não percebeu quando Stela se aproximou de sua mesa.

— Nossa, que cara péssima! Não me diga que dormiu chorando de novo?!

— Por que você tem que chegar sempre em silêncio?

— Não é culpa minha ter passos leves, querida. O pessoal está querendo almoçar naquele restaurante novo do outro lado da rua. Tá a fim de ir? Talvez role um chope para aguentar o resto da tarde com esses prazos impossíveis.

Marina parou, pensou e chegou a cogitar que ficar bêbada talvez fosse o que ela precisava. Mas não. Não conseguiria interagir nem socializar com um sorriso no rosto, fazendo de conta que estava tudo bem, pois não estava. Estava tudo um caos, uma bagunça; sentia-se irreconhecível.

— Bom, você que sabe. Mas pelo menos melhore essa cara péssima e fure o pneu daquele carro que ele tanto ama. Ele devia era manter um relacionamento com aquele carro, só acho.

Marina revirou os olhos, mas Stela lhe deu uma ideia: furar os pneus do carro. Seria engraçado ver o desespero. Imagine os quatro pneus furados, sem poder sequer usar o único estepe. Teria que abrir a carteira para comprar quatro pneus. Seria o mínimo depois de toda a palestrinha de término. Sério, quem faz uma palestra para terminar com alguém?

Teve outra ideia, melhor ainda: riscar o carro de fora a fora. O precioso carro, ao qual ele dedicava um zelo excessivo que tantas vezes a incomodara. Quantas vezes desejara ser aquele carro para receber o mínimo de cuidado? Marina não o odiava. Odiava-se.

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Os cacos ainda não terminaram de falar.

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