O suficiente

Magenta! apresenta: #OJogo

Terceira parte — A partida começa

Capítulo 12

As quatro cartas permaneceram viradas para baixo.

Ninguém tocou.

No centro das folhas, a frase continuava ali.

VOCÊS JÁ SABEM O SUFICIENTE.

Caio foi o primeiro a quebrar o silêncio.

— Eu adoraria saber o suficiente sobre o que exatamente.

Davi olhou para ele.

— Sobre sobreviver, de preferência.

Lia não desviava os olhos das cartas.

— Acho que não é isso.

Paulinho sentiu a frase pesar.

Não porque explicasse.

Porque encerrava uma fase.

Até ali, o jogo sempre oferecera alguma coisa.

Uma pergunta.

Uma pista.

Uma mudança.

Agora parecia ter parado de ensinar.

Como se o resto dependesse deles.


Davi estendeu a mão para a própria carta.

Dessa vez, ninguém o impediu.

Ele virou.

Quatro quadrantes.

Magenta.

Ciano.

Amarelo.

Preto.

Nada além.

Caio virou a dele.

Lia também.

Paulinho foi o último.

As quatro cartas estavam dispostas diante deles.

Fixas.

Sem possibilidade de rotação.

Como sempre.

Mas agora havia uma diferença.

Eles já sabiam como perguntar.

Já sabiam que uma resposta podia significar o contrário.

Já sabiam que a pressa transformava suspeita em erro.

E, pior ainda, já sabiam que nem toda certeza era realmente certeza.

Lia pegou o lápis.

— Vamos fazer direito.

Davi encostou na cadeira.

— Isso tira metade da graça.

— Você quase foi a metade da desgraça no capítulo passado.

Caio olhou para ela.

— Capítulo?

Lia piscou.

— Jeito de falar.

Davi sorriu.

— Gostei.

Paulinho não comentou.

Por algum motivo, a frase pareceu errada de um jeito que ele não conseguiu localizar.


A primeira rodada começou sem anúncio.

Apenas começou.

Paulinho olhou para Lia.

— Seu quadrante inferior direito é amarelo?

A folha dele recebeu uma pequena marca.

Pergunta aceita.

Lia respondeu:

— Sim.

Caio perguntou a Davi:

— Seu quadrante superior esquerdo é preto?

— Não.

Davi perguntou a Paulinho:

— Seu quadrante inferior esquerdo é ciano?

Paulinho sentiu a resposta surgir antes do pensamento.

— Sim.

Por fim, Lia olhou para Caio.

— Seu quadrante superior direito é magenta?

Caio demorou um segundo.

— Não.

Quatro perguntas.

Quatro respostas.

Nenhuma verdade garantida.


Lia começou a anotar.

Davi observou.

— Você está tratando isso como prova.

— Estou tratando como problema.

— Piorou.

Caio olhava para Paulinho.

— Você respondeu rápido demais.

Paulinho franziu a testa.

— E daí?

— Não sei.

— Então por que falou?

— Porque talvez seja importante.

Davi apontou para Caio.

— Parabéns. Você acabou de descobrir a base científica da fofoca.

Caio mostrou o dedo do meio.

A mesa fez um som curto.

Os quatro pararam.

Davi olhou para o tampo.

— Ela desaprova?

Lia segurou o riso.

— Talvez seja educação básica.


A segunda rodada veio mais rápida.

Eles já não perguntavam só por cor.

Começavam a testar consistência.

Uma resposta contra outra.

Uma possibilidade contra a seguinte.

Se Lia fosse honesta, então…

Se Davi fosse blefador, então…

Se Caio tivesse respondido ao contrário…

Se Paulinho…

Paulinho parou.

— Tem um problema.

Lia levantou os olhos.

— Qual?

— A gente está tentando descobrir as cartas primeiro.

Caio fez uma careta.

— E não é isso?

Paulinho olhou para as folhas.

Para as marcas.

Para as respostas.

Para a frase na lateral da caixa que já aparecera tantas vezes na memória.

Nem toda resposta revela.

— Não.

Lia entendeu quase ao mesmo tempo.

— Primeiro a gente descobre quem está respondendo.

Davi se inclinou.

— Honesto ou blefador.

Paulinho assentiu.

— Depois as respostas começam a significar alguma coisa.

Caio olhou para sua folha.

— Então a carta é quase distração.

Lia corrigiu:

— Não. É prova.

— Prova de quê?

— Da pessoa.

O silêncio veio imediatamente.

Dessa vez, a mesa não fez som.

Não precisava.


Paulinho começou a reorganizar as anotações.

Não por cor.

Por comportamento.

Lia fez o mesmo.

Caio tentou acompanhar.

Davi parecia menos interessado do que realmente estava.

A terceira rodada tornou tudo mais difícil.

Porque agora eles sabiam o que procurar.

E descobriram que saber o que procurar não significa encontrar.

Paulinho tinha duas hipóteses para Lia.

Duas para Caio.

Davi parecia encaixar em três possibilidades diferentes.

E ele mesmo…

ele ainda não sabia o que era.

Isso o incomodava mais do que deveria.

Caio percebeu.

— Você está tentando descobrir você mesmo.

Paulinho não respondeu.

Davi sorriu de lado.

— Filosofia adolescente chegou.

Lia continuou escrevendo.

— Ele precisa saber.

— Por quê?

— Porque se ele não souber o que é, não sabe o que as próprias respostas significam.

Paulinho sentiu o estômago apertar.

Era exatamente isso.


Então a mesa mudou.

As quatro folhas ficaram limpas.

Todas as anotações desapareceram.

Caio levantou da cadeira.

Ou tentou.

A cadeira não permitiu.

— Ah, não.

Lia segurou o lápis.

— Calma.

— Você disse isso para a pessoa errada.

No centro das quatro folhas apareceu uma nova frase.

FASE DE RECONHECIMENTO CONCLUÍDA.

Davi leu.

— Isso parece bom.

Uma segunda frase surgiu.

A PRÓXIMA ACUSAÇÃO TERÁ CONSEQUÊNCIA.

Davi perdeu o sorriso.

Caio olhou para Paulinho.

— Que consequência?

A mesa não respondeu.

Lia olhou para as cartas.

— Ainda não temos certeza.

Paulinho concordou.

— Não.

Uma terceira frase apareceu.

CERTEZA NÃO É REQUISITO.

Ninguém falou.

Paulinho leu outra vez.

CERTEZA NÃO É REQUISITO.

Aquilo parecia errado.

Tudo o que haviam aprendido até ali dizia o contrário.

Não concluir cedo demais.

Não chamar resposta de verdade.

Não acusar sem prova.

Lia também percebeu.

— Então qual é o requisito?

A mesa ficou em silêncio por alguns segundos.

Depois respondeu.

DECIDIR.


As luzes da sala diminuíram.

Não apagaram.

Apenas deixaram a mesa mais nítida.

O resto da casa desapareceu na sombra.

No centro do tampo, um círculo magenta começou a se formar.

Lento.

Preciso.

Igual ao da caixa.

Mas maior.

Dentro dele surgiu uma última mensagem.

PARTE FINAL.

Caio respirou fundo.

— Eu preferia quando a gente estava procurando bolo.

Davi olhou para ele.

— Ainda dá tempo.

Lia olhou para os dois.

— Não dá.

Paulinho não disse nada.

Observava a palavra no centro da mesa.

Decidir.

Não descobrir.

Não provar.

Decidir.

E foi então que compreendeu o que o jogo vinha tentando dizer desde o começo.

Talvez nunca existisse uma pergunta capaz de produzir certeza absoluta.

Talvez a última regra fosse justamente essa.

Em algum momento, alguém precisaria acusar.

Mesmo sem saber tudo.

O círculo magenta pulsou uma única vez.

As quatro cartas se ergueram alguns milímetros nos suportes.

E uma nova frase começou a aparecer.

Paulinho leu a primeira palavra.

Depois a segunda.

Não precisou chegar ao fim para sentir medo.

ESCOLHAM QUEM SERÁ O PRIMEIRO A ARRISCAR.

(fim da terceira parte)

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