Por Paulo Ricardo Zargolin
Um estudo de caso para mentes inquietas sobre apostas, repetição, controle e a estranha dificuldade humana de aceitar que acabou.
Você sabe que a máquina não foi construída para distribuir dinheiro.
Sabe que, para continuar funcionando, a casa precisa ganhar. Sabe que aquela pessoa que aparece numa propaganda transformando uma quantia pequena numa pequena fortuna está ali justamente porque isso chama mais atenção do que todas as pessoas que apertaram os mesmos botões e simplesmente perderam.
Você sabe.
E, ainda assim, existe uma pergunta incômoda:
por que alguém aperta outra vez?
Talvez a resposta mais fácil seja imaginar que o jogador não compreendeu as probabilidades. Que faltou informação, inteligência, educação financeira ou capacidade de reconhecer uma armadilha óbvia.
É uma explicação confortável porque cria uma distância segura.
Eu saberia parar.
O problema é que o jogo não precisa convencer alguém, durante horas, de que a vitória é provável. Pode bastar produzir, durante alguns segundos, uma sensação muito mais modesta:
a próxima tentativa pode ser diferente.
Estudos sobre transtorno do jogo mostram que a possibilidade de uma recompensa surgir a qualquer momento pode produzir excitação e reforçar a continuidade do comportamento. O jogador não retorna apenas pela expectativa de ganhar; pode retornar também para tentar recuperar perdas anteriores. Quanto menor o intervalo entre tentativa e possível recompensa, maior pode ser o poder de reforço daquele jogo (OLIVEIRA et al., 2022).
É nesse ponto que uma palavra aparentemente inofensiva começa a mudar de significado:
recuperar.
Quem perdeu cem reais e aposta outros vinte pode não estar pensando nos vinte.
Pode estar tentando apagar os cem.
A aposta seguinte passa a carregar uma tarefa impossível: alterar retrospectivamente aquilo que já aconteceu.
Se eu conseguir agora, a perda anterior terá valido a pena.
Se eu parar agora, terei perdido de verdade.
Se eu tentar mais uma vez, talvez ainda consiga sair daqui como alguém que ganhou.
A literatura clínica sobre o jogo descreve inclusive uma progressão característica. Depois de experiências de vitória, o jogador pode passar a interpretar a sorte como habilidade; na chamada fase da perda, aparecem otimismo irrealista, aumento das apostas, utilização de economias, endividamento e uma crescente dificuldade de tolerar aquilo que já foi perdido (OLIVEIRA et al., 2022).
Observe que alguma coisa mudou.
No começo, o objetivo era ganhar.
Agora, o objetivo pode ser não terminar perdendo.
E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.
A última tentativa
Quase toda sequência de repetição conhece alguma versão desta frase:
Só mais uma.
Depois dessa eu paro.
Vou tentar mais duas vezes.
Agora é a última.
Criamos limites para nós mesmos porque eles transformam a continuação numa espécie de exceção administrada. Não estou continuando indefinidamente. Estou apenas autorizando mais uma tentativa.
Depois outra.
E talvez outra.
A última tentativa possui uma característica curiosa: raramente sabe que é a última.
O problema também não pode ser reduzido à falta de informação. Ragazzo e Ribeiro observam que, diante de acontecimentos probabilísticos raros, as pessoas nem sempre dispõem de experiências anteriores suficientes para avaliar corretamente probabilidades e consequências. Para tomar decisões perfeitamente racionais, seria preciso estimar não apenas o possível resultado de cada alternativa, mas também suas probabilidades reais — algo muito mais difícil do que parece (RAGAZZO; RIBEIRO, 2012).
O acaso, além disso, é um objeto particularmente irritante para a mente humana.
Gostamos de perceber padrões.
Se aconteceu duas vezes, procuramos a terceira. Se quase aconteceu, imaginamos que estivemos perto. Se uma escolha deu errado, perguntamos qual escolha teria dado certo.
É difícil aceitar uma explicação que não contém intenção, aprendizagem ou justiça:
aconteceu porque aconteceu.
Por isso transformamos sequências aleatórias em histórias.
Talvez agora.
Ontem chegou perto.
Nunca acontece quatro vezes seguidas.
Depois de perder tanto, alguma coisa precisa vir.
Não precisa.
Mas uma sequência de eventos pode começar a parecer uma narrativa muito antes de possuir qualquer narrativa.
Talvez estejamos fazendo a pergunta errada
Diante de uma máquina, o jogador naturalmente pergunta:
qual é a chance de eu ganhar?
Só que talvez essa não seja a única pergunta relevante.
Para quem projeta, oferece ou explora um jogo, pode existir outra:
qual é a chance de ele jogar novamente?
Essas duas perguntas parecem semelhantes.
Não são.
Uma trata do resultado de uma rodada.
A outra trata da repetição.
E talvez seja justamente na distância entre uma e outra que esteja escondida a parte mais interessante desta história.
No Logosgrafia, os textos e publicações continuam transformando perguntas aparentemente simples em outras um pouco mais difíceis.
A leitura continua
Até aqui, falamos sobre ganhar e perder.
E se ganhar dinheiro não for a única coisa que alguém compra quando aposta?
A continuação deste estudo é liberada gratuitamente para assinantes Free do Logosgrafia. Nela, entramos em expectativa, velocidade, algoritmos e sensação de controle.
E há uma história se aproximando: A Matadora de Tigrinhos chega em 17 de setembro .
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