Maracangalha
Capítulo 19
Por: Paulo Ricardo Zargolin
O caminhão surgiu como quem não aceita o ritmo da cidade. Não se anunciou, não respeitou esquina nem cochilo de passarinho. Apenas cortou a manhã — como a força de uma faca cega tentando romper um pão endurecido pela madrugada. Era barulho demais para uma terça-feira que mal tinha se espreguiçado.
Laura ergueu o rosto da xícara ainda quente. Ísis já estava de saída, mas parou no batente, surpresa. Cristina, da janela, franziu o cenho como quem escuta o que ainda não entendeu.
— Mudança? — murmurou, com um tom que já julgava antes de saber.
No portão da frente, uma das vizinhas, Dona Elza — de bata florida, cabelo em rolinhos e língua sempre pronta — surgiu como quem já esperava pela ocasião.
— Mas vê se pode, Cristina… logo aqui! Uma velha de cabelo tingido e um rapagão cheio de músculo, todo carinhoso com ela. Um casal! — disse, estalando a língua como quem reza pelo avesso. — Pelo sotaque, são lá de cima. Norte, Nordeste… sei lá. Gente que chega e já espalha a rede antes de perguntar se o sol é de todos.
Cristina não respondeu de imediato. Mas o rosto endureceu como porcelana velha.
Do caminhão, desceu primeiro o rapaz. Moreno, alto, de camiseta regata, braços largos e voz mansa. Chamava-se Lucas. Depois veio Clara — cabelos brancos pintados de vinho, sandálias de couro e um vestido azul-esverdeado que parecia feito de vento e riso antigo. Os dois sorriam com naturalidade. Tocavam-se com leveza. A cumplicidade deles não era barulhenta, mas também não se escondia.
— Olha lá… — cochichou a vizinha, com veneno escorrendo — se agarrando em plena calçada! E ela… deve ser mais velha que eu, só que com jeito de moça. Deve ter alguma simpatia no meio disso. Essas coisas… não são de Deus.
Cristina continuava em silêncio. Os olhos, no entanto, dançavam entre o desconcerto e a recordação.
Laura, da varanda, observava. Ísis também. Por um segundo, ninguém falou. Só se escutava o arrastar dos móveis, o ranger da carroceria, o estalo de uma tábua quebrando sob uma cômoda antiga.
Na calçada, Clara ajeitava uma planta no sol e ria de algo que Lucas dissera. O riso dela era daqueles que não pedem desculpa por existir.
Cristina enfim soltou, como quem exala um fantasma guardado:
— Pois é… muda gente, muda rua. Mas a língua… essa continua afiada.
A vizinha, sem graça, recolheu a língua ao tom do pano de prato que carregava.
Ísis então comentou, mais para si do que para as outras:
— Gosto deles. Têm cara de quem sabe o que viveu.
Laura respondeu apenas com o olhar. E ele dizia muito.
Do outro lado da rua, Clara olhou em direção à casa. Cruzou olhares com Cristina por um segundo longo. Depois acenou, com a delicadeza de quem não exige resposta.
Foi quando o sol se abriu, sem pedir licença.
Depois de pensar por alguns minutos, Laura atravessou a rua. Não havia intenção declarada, nem convite pendurado no varal. Levava nas mãos um copo de vidro com duas mudas de manjericão — plantadas por Cristina em latinhas de milho. Disse que era para replantar no quintal. Mas os pés, por conta própria, optaram pela calçada de frente.
Lucas arrumava caixas na varanda, sob o som de um rádio baixo que deixava a canção se misturar com o vento. A madeira estalava sob o peso dos móveis. O cheiro de coisa antiga em mudança ocupava o ar como quem pede licença e já entra.
Clara surgia da sala com um pano de prato no ombro e duas xícaras na mão. Seu vestido, solto e azul, parecia ter sido tingido de céu.
— Posso? — disse Laura, do outro lado do portão, já entreaberto.
Clara olhou com um tempo de quem observa antes de responder. Depois sorriu, sem protocolo:
— Pode sim, filha. Portão meio aberto é quase convite. E você veio com verde na mão… coisa rara.
— Trouxe manjericão. Cristina planta, mas nunca dá conta de tanto.
— E o que é demais de cheiro, a gente espalha — respondeu Clara, pegando o copo com as duas mãos, como quem recebe mais do que planta.
Lucas acenou com a cabeça, e o gesto era tão simples quanto atento. Nos olhos dele havia um cansaço doce — desses que vêm de quem já entendeu o silêncio alheio.
— Vocês são daqui? — arriscou Laura.
— Agora somos — disse Clara. — Viemos de longe, como quem volta.
Laura hesitou. Tocou os próprios dedos. Depois ergueu os olhos, direto:
— E vocês… são mãe e filho?
Clara soltou um riso que lembrava colher de madeira batendo em panela vazia. Um som antigo, doméstico, familiar.
— Eu pari ele com dor e criei com reza. Mas bastou a gente morar junto, sozinhos, pra dizerem que sou amante. Imagina! Só porque nos tratamos com carinho.
— Já cochicharam isso aqui também — disse Laura, sem olhar para cima.
— O povo confunde o toque com o pecado. E o afeto com escândalo. Não foi fácil manter o afeto inteiro nesse mundo que vive tentando quebrar as partes. Mas a gente segurou o que pôde. O resto a gente refez.
Lucas apareceu à porta, já sem caixa nas mãos. Olhou a mãe com reverência sem exagero, como quem sabe o quanto custou aquele vínculo. Passou o braço por seus ombros e encostou de leve a cabeça, num gesto que dizia mais do que qualquer explicação.
— Minha mãe é casa — disse. — E eu aprendi a morar nela sem quebrar nada.
O silêncio que se seguiu não era espesso. Era justo.
Laura apertou o copo vazio entre os dedos, como quem segura não um objeto, mas uma metáfora. Antes de virar-se, disse:
— As mudas crescem melhor na meia-sombra. Só regar com cuidado. Não precisa demais.
— Como as pessoas — respondeu Clara. — É só não afogar. Nem deixar secar.
Laura assentiu com os olhos. Já ia se despedindo quando Clara completou:
— Se quiser passar aqui qualquer dia… não precisa trazer planta. Traz só presença. Tem café, e tem escuta. Às vezes, isso basta.
Laura sorriu com um canto só do rosto. Não era promessa. Mas era o mais próximo que ela conseguia fazer de uma.
Quando chegou à outra calçada, antes de abrir o portão de sua casa, olhou de volta. Clara já havia entrado. Mas Lucas ainda estava ali. Em pé, de lado, com o braço apoiado na mureta.
Acenou.
Não com a mão. Com o tempo do olhar.
Laura não retribuiu de imediato.
Mas ficou um segundo a mais do que o necessário.
E às vezes, isso… é resposta.

