Maracangalha
Capítulo 18
Por: Paulo Ricardo Zargolin
A casa tinha cheiro de produto de limpeza e exaustão recolhida. Cristina retirara os panos do varal antes das cinco, como fazia em toda segunda, e foi dormir cedo, fiel à cadência dos próprios gestos. O rádio, desligado, ainda ocupava um espaço sonoro: seu silêncio rangia.
Laura caminhava pelos cômodos com uma inquietação que nem vassoura alcançava. Ensaiava toques nos objetos sem tocá-los de fato. Abriu o baú do quarto. A poeira subiu como lembrança com forma.
Sob os cadernos adormecidos, um lenço de linho azul. E, sob ele, uma fotografia esquecida: duas mulheres encostadas à sombra de um portão. Uma era Cristina. A outra, provavelmente Marta. Jovens, quase felizes. A suposta Marta sorria com a leveza de quem ainda não conhecia despedidas. Cristina, não. Seu rosto era de quem segurava mais do que o braço.
"O toque não vinha. Mas e o desejo? Seria bom saber do que agora ela sabia?", pensou. O arrepio que veio não era susto — era reconhecimento.
Com a foto nas mãos, Laura cruzou o corredor. Parou diante do dormitório de Ísis. A porta entreaberta, o abajur aceso, o fone largado. Jazz sussurrava baixinho. O quarto respirava em outro compasso.
— Posso?
— Claro — respondeu a prima postiça, com olhos que acolhiam sem pressa.
Laura sentou-se devagar à beira da cama. Estendeu a imagem.
— Estava no fundo do baú.
Ísis pegou o papel com delicadeza. Bastou um segundo para reconhecer a mãe.
— Marta.
— E Cristina.
— Estavam próximas.
— Muito.
A fotografia permaneceu entre elas. Não como objeto — mas como presença.
— Hoje me deu vontade de sair de Maracangalha — disse Laura, sem medir. — Não por fuga. Por exaustão.
— E por que ficou?
— Porque ainda tenho coisas por dizer. E isso me prende mais que qualquer muro.
Ísis apenas olhou. Esperava.
— Você tem o direito de saber — continuou Laura. — Mas tem coisa que a gente só conta quando o outro consegue amar o que doeu na gente.
O quarto encolheu. O abajur titubeou.
— E se eu disser que já amo o que você ainda esconde?
Laura respirou. A resposta ardia — mas não era a hora.
— Então eu preciso ter certeza de que é amor mesmo. E não só vontade de entender.
Ísis pousou a imagem sobre o lençol.
— Entender não é pouco. Mas eu não vim pra te estudar, Laura.
Trocaram um olhar. E a imagem de Marta e Cristina ficou entre elas como o espelho de um silêncio herdado.
Laura levantou-se. Passou os dedos pela lateral do colchão, procurando firmeza no tecido antes de se erguer.
— Se eu demorar pra contar, não é covardia. É cuidado.
— E se eu demorar pra perguntar, é porque aprendi a esperar.
Na porta, Laura hesitou.
— Às vezes, a gente só começa a contar quando percebe que o outro não vai sair correndo.
Ísis sorriu. Baixo. Terno.
— Tô aqui.
Laura acenou, enquanto o corredor escuro a recebia de volta como quem recolhe um segredo.
E, naquela casa onde quase tudo ainda era suspiro contido, duas mulheres seguiram tentando desatar o nó — sem cortar o fio.

