Há pessoas que, quando encontram alguém rindo, precisam saber imediatamente o motivo. Dependendo da resposta, parecem ainda mais incomodadas. Como assim, está rindo disso? Com tanta coisa acontecendo no mundo?
O mundo, de fato, anda bastante ocupado fornecendo motivos para que ninguém ria. Se formos esperar que ele termine, teremos um problema de prazo.
Penso nisso ao voltar a “Rir é o melhor remédio”, nesta primeira passagem da nave pelo álbum Sexto Sentido. O título tem a familiaridade dessas frases que ouvimos tantas vezes que já não nos damos ao trabalho de examinar. Concordamos, sorrimos, seguimos em frente. Até que encontramos alguém levando a recomendação a sério e achamos que a pessoa está fazendo papel de boba.
É curioso. Aprovamos a alegria em tese. Na prática, pedimos que ela se comporte.
Há horário, lugar, volume e idade para determinadas manifestações. Uma criança pode dançar de um jeito desengonçado e receber aplausos. O adulto precisa, pelo menos, demonstrar que está brincando, como se a intenção de fazer graça lhe concedesse uma licença temporária para movimentar os braços daquela maneira. Se estiver realmente gostando, sem nenhuma preocupação com a própria imagem, já começa a levantar suspeitas.
Eu me pergunto quanto do nosso cansaço vem desse trabalho de fiscalização.
Não basta viver uma experiência. Precisamos observar como estamos aparecendo dentro dela. A dança será bonita? A risada ficou estranha? Alguém está filmando? Esta última pergunta, reconheço, tem seus fundamentos. A humanidade desenvolveu meios muito eficientes de prolongar um constrangimento.
Ainda assim, deve haver algum lugar entre a exposição permanente e a imobilidade no qual possamos nos divertir.
Uma música como essa me faz pensar na facilidade com que uma brincadeira pode tomar conta de alguns minutos. Há um ritmo para acompanhar, um corpo disponível, uma vontade que aparece. Depois, a vida continua. Ninguém precisa sair dali transformado numa pessoa exemplar, mais produtiva ou preparada para vencer os desafios da semana.
Aliás, até o descanso anda recebendo tarefas. É preciso descansar para produzir melhor. Divertir-se para aliviar a tensão e voltar ao trabalho. Fazer alguma coisa agradável porque ela desenvolve uma habilidade, melhora um desempenho, estimula uma competência. Daqui a pouco, será necessário informar no início da risada quais resultados pretendemos alcançar.
Gostar já deveria ser uma justificativa aceitável para muita coisa.
Quando penso na Xuxa que atravessa essas lembranças, penso também nesse convite para participar. A música está acontecendo e podemos entrar nela. Há algo de generoso nessa possibilidade, sobretudo quando nos permitimos acompanhar sem exigir que a experiência seja extraordinária. Às vezes, são apenas alguns minutos bons. E alguns minutos bons fazem parte de uma vida.
Temos certa dificuldade em admitir a importância dessas coisas pequenas. Falamos da felicidade como se ela precisasse chegar acompanhada de uma mudança de endereço, de uma grande conquista ou de uma comprovação bancária. Enquanto isso, uma tarde agradável passa por nós sem receber muita consideração. Não era ainda aquilo que estávamos esperando.
É possível passar bastante tempo esperando uma vida na qual as pequenas alegrias que já temos seriam, finalmente, autorizadas a contar.
Mas o título da canção também merece cuidado. “Rir é o melhor remédio” pode ser uma boa companhia e uma péssima ordem. Há uma diferença enorme entre encontrar uma oportunidade de rir e ouvir que precisamos sorrir justamente quando alguma coisa nos dói.
Quem está sofrendo não deve uma expressão agradável a quem chegou perto.
Há pessoas que se incomodam tanto com a tristeza alheia que tentam resolvê-la antes mesmo de compreender o que aconteceu. Recomendam ânimo, gratidão, pensamento positivo. Em poucos minutos, o sujeito que estava triste precisa administrar também a impressão de que está sendo triste de maneira inadequada.
Até para ficar mal há quem queira nos ensinar boas maneiras.
O humor pode aparecer no meio de um dia difícil. Podemos rir de alguma coisa e continuar preocupados com outra. Uma alegria não precisa declarar que está tudo resolvido para ter lugar. A vida comporta essas misturas, embora gostemos de arrumá-la em categorias mais fáceis de apresentar aos outros.
Talvez a delicadeza esteja em oferecer companhia e perceber o que cabe naquele momento. Às vezes, uma conversa fica mais leve porque alguém encontra uma graça que todos conseguem compartilhar. Em outras ocasiões, o melhor que podemos fazer é permanecer por perto sem tentar animar o ambiente.
Também importa de que estamos rindo. Uma brincadeira pode aproximar as pessoas ou escolher uma delas para pagar a diversão das demais. O argumento de que “foi só uma piada” costuma aparecer justamente quando alguém já percebeu que não foi tão divertido assim para todo mundo.
Se o remédio precisa que outra pessoa adoeça, convém rever a receita.
Gosto mais do riso que nos inclui. Da possibilidade de reconhecer os nossos exageros, as nossas pequenas pretensões, essa seriedade com que às vezes defendemos coisas que amanhã parecerão perfeitamente dispensáveis. Há um alívio em descobrir que podemos errar um passo e continuar na música. Que o mundo não vai abrir uma investigação porque fizemos alguma coisa sem elegância.
É uma descoberta que eu gostaria de conservar nesta viagem.
Sexto Sentido ainda terá outra parada por aqui. Há a lembrança do LP inteiro, colocado para tocar e dançado do começo ao fim, que merece seu próprio espaço. Por enquanto, quero ficar com essa disposição para aceitar uma alegria quando ela aparece, sem submetê-la a tantas exigências que acabe desistindo de nós.
Podemos gostar de uma música. Podemos dançar. Podemos achar graça de uma bobagem que, contada depois, não terá graça nenhuma. Quem estava lá talvez entenda. E, se também não entender, paciência. A risada já aconteceu.
O mundo continuará fornecendo seus motivos de preocupação. Não imagino que Xuxa tenha assumido o compromisso de suspendê-los até o final do disco.
Mas, se a alegria aparecer enquanto isso, pretendo recebê-la.
A tristeza já sabe entrar sem bater.

