Por: Paulo Ricardo Zargolin
Desta vez, para encontrar um Zargolin por aí, eu não precisei ir muito longe.
Não foi em uma sala de aula de Belo Horizonte, em uma pesquisa no Piauí, em uma formação no Rio de Janeiro ou em um artigo publicado na Paraíba.
Foi em Birigui.
E, curiosamente, o caminho não começou com um texto meu que alguém encontrou anos depois. Começou com arquivos ainda abertos, páginas que precisavam ganhar forma, trechos sendo revistos, quadros reorganizados, capas, sumários, referências, tabelas, cores, margens e aquelas pequenas decisões que desaparecem completamente quando alguém abre um PDF pronto.
Nos últimos dois anos, participei das equipes responsáveis por quatro publicações técnico-pedagógicas da Secretaria Municipal de Educação de Birigui. Em diferentes graus e momentos, estive envolvido em sua construção e, especialmente, em uma parte do trabalho pela qual tenho particular interesse: a organização e a editoração dos documentos.
E editar um documento assim é uma experiência curiosa.
Não basta deixá-lo bonito.
É preciso fazê-lo funcionar.
Uma orientação pedagógica pode estar tecnicamente correta e, ainda assim, perder força se estiver enterrada no meio de uma página. Uma tabela pode esclarecer uma ideia ou torná-la ainda mais difícil. Um título pode apenas separar duas partes ou ajudar o leitor a compreender que houve ali uma mudança de raciocínio.
Em documentos que precisam chegar a professores, gestores e outros profissionais da educação, forma e conteúdo conversam o tempo inteiro.
Foi assim com Mediação de Conflitos na Educação Infantil: um olhar afetivo para a primeira infância, publicado em 2025. O material parte de princípios da mediação pedagógica e chega a situações muito concretas do cotidiano das creches — como choro, mordidas, disputa por brinquedos e outras manifestações que exigem do adulto mais do que uma reação imediata: exigem compreensão, intencionalidade e mediação.
Depois veio o Documento Orientador de Avaliação na Educação Infantil, em 2026.
Ali, outro desafio: organizar em um mesmo material uma concepção de avaliação contínua, formativa e não classificatória, uma Matriz de Referência, o Instrumento de Avaliação Semestral do SEMEBI, exemplos de situações avaliativas e possibilidades de documentação pedagógica.
Na sequência, o Documento Orientador de Sondagens no Ciclo de Alfabetização reuniu Língua Portuguesa e Matemática em um material voltado especialmente ao 1º e ao 2º ano do Ensino Fundamental, organizando procedimentos, registros e instrumentos sem perder uma ideia fundamental: sondagem só faz sentido quando ajuda o professor a compreender o que a criança sabe e a decidir como ensinar a partir disso.
E o Marco de Liderança Educacional levou o trabalho para outra escala.
Em vez de organizar instrumentos ligados diretamente à aprendizagem das crianças, foi necessário dar forma a um documento que sistematiza princípios e valores, habilidades e conhecimentos profissionais relacionados às diferentes funções de liderança da Rede Municipal.
Quatro documentos bastante diferentes. Quatro problemas editoriais diferentes. E uma experiência em comum: acompanhar algo que começa como discussão, estudo, contribuição coletiva e arquivo de trabalho até o momento em que aquilo deixa de pertencer à mesa de quem está produzindo e passa a existir publicamente.
Talvez esse seja o instante mais estranho.
Durante algum tempo, você conhece aquelas páginas quase intimamente. Sabe onde havia um quadro que mudou de lugar. Lembra de uma página que precisou ser refeita. Reconhece uma escolha de fonte, uma distribuição de elementos, uma solução encontrada para uma informação que simplesmente não cabia onde deveria caber.
Depois o arquivo é fechado.
O PDF vai para o site oficial.
E pronto.
Ele já não é mais “o arquivo em que estamos trabalhando”.
É um documento da Rede.
Professores podem consultá-lo. Gestores podem retomá-lo numa reunião. Alguém pode abrir determinada página daqui a alguns anos sem saber absolutamente nada sobre as conversas, versões e decisões que a antecederam.
É aí que a editoração deixa de ser apenas acabamento.
Ela passa a participar também da memória institucional.
Nada disso transforma documentos coletivos em obra individual — e seria um erro contar essa história dessa maneira. Os quatro materiais nasceram do trabalho de equipes, estudos, formações e diferentes profissionais da Secretaria Municipal de Educação e da Oficina Pedagógica. Meu nome aparece justamente entre outros nomes, em equipes que variam conforme a natureza de cada publicação.
Mas talvez exista também algo muito particular em reconhecer, dentro de uma produção coletiva, as páginas pelas quais nossas mãos passaram.
É uma autoria de outra espécie.
Não a de dizer “isto é meu”.
Mas a de olhar e pensar: “eu ajudei isto a existir desta forma.”
E talvez seja justamente por isso que esses quatro PDFs também mereçam entrar no Zargolin por aí.
Desta vez, as palavras não atravessaram estados enquanto eu permanecia em Birigui.
Eu fui com elas até a escola.
📍 Zargolin por aí — Birigui/SP
Os documentos mencionados neste texto são publicações oficiais da Secretaria Municipal de Educação de Birigui e podem ser consultados diretamente no portal do Município.
Documento Orientador de Sondagens no Ciclo de Alfabetização — 2026
Consultar a publicação oficial
Documento Orientador de Avaliação na Educação Infantil — 2026
Consultar a publicação oficial
Marco de Liderança Educacional — 2026
Consultar a publicação oficial
Mediação de Conflitos na Educação Infantil: um olhar afetivo para a primeira infância — 2025
Consultar a publicação oficial

