Por: Paulo Ricardo Zargolin
O jantar foi bom.
Melhor do que deveria.
Luísa percebeu isso antes mesmo de terminar a primeira taça. Havia algo desconfortavelmente familiar na forma como tudo se organizava: o garçom atento, o vinho escolhido sem hesitação, o tempo exato entre uma fala e outra.
Como se nunca tivessem terminado.
Mas Ricardo não estava exatamente ali.
Falava menos. Observava mais. E, quando sorria, parecia decidir antes se valia a pena.
— Você está diferente — ela disse.
Ele girou a taça.
— Você também.
Não era um elogio.
No banco, Lucas ainda ocupava a mesa.
Mas já não parecia estar trabalhando.
Os papéis alinhados com cuidado excessivo. A tela aberta sem avanço. O cursor piscando.
Seu Leônidas parou ao lado.
— Sua esposa não apareceu hoje?
Lucas levantou os olhos.
— Não.
— Trabalha na mesma empresa que você comentou…?
— Não. Outro lugar.
A correção veio rápida.
Rápida demais.
Seu Leônidas assentiu.
Como quem registra.
— Entendo.
Silêncio.
— Conseguiu falar com ela?
— Ainda não.
— Imagino.
A palavra não confortava.
A porta se abriu.
— Pai?
Léo entrou.
Olhou o pai. Depois Lucas.
— Aconteceu alguma coisa?
Lucas respondeu antes.
— Minha esposa… sumiu.
Léo franziu a testa.
— Desde quando?
— Segunda.
— E você já falou com as autoridades?
Lucas não respondeu.
E isso respondeu.
Seu Leônidas observou.
— Estou resolvendo — Lucas disse, por fim.
Léo assentiu.
— Qualquer coisa, a gente ajuda.
Lucas não agradeceu.
O garçom serviu mais uma taça de Casillero del Diablo.
— E lá?
Ricardo girava a taça.
— Igual sempre — disse Luísa.
— Sempre como?
— Com interesse suficiente pra comentar. Não o bastante pra se importar.
Ele assentiu.
— E você?
— Depende do dia.
— Hoje?
— Hoje eu saí pra jantar.
Um quase sorriso.
— Estão falando do marido — ele disse.
— Estão falando de tudo.
— Mas dele mais.
Ela não negou.
— Engraçado… desaparecer assim… e ninguém correr muito atrás.
— Talvez estejam correndo.
— Não parece.
Luísa cruzou as mãos.
— Você parece interessado.
— Eu trabalho com gente que evita ruído.
— E isso é ruído?
— Depende de quem atende o telefone.
O silêncio mudou.
— Você ainda tem o contato dele?
Luísa não respondeu.
— Por quê?
Ricardo não olhou para ela.
— Às vezes a gente liga… e não é atendido.
— E você acha que eu resolvo isso?
— Acho que você sabe mais do que parece.
Ela sustentou o olhar.
— E você fala menos do que deveria.
Agora ele olhou.
— Eu estou tentando evitar um erro.
— Seu?
— Não exatamente.
Pausa.
— Mas pode sobrar pra mim.
Luísa recostou-se.
— Então você não quer o número.
Ele não respondeu.
— Você quer saber se o número existe.
Silêncio. Mais longo. Mais pesado.
Do outro lado da cidade, Amanda escutava.
Os passos eram diferentes.
Mais de um.
As vozes também.
— E agora?
— Agora a gente espera.
— Espera o quê?
Silêncio.
— Instrução.
Amanda fechou os olhos.
Não por medo. Por cálculo.
No restaurante, o garçom se aproximou.
Ricardo recusou a sobremesa.
Luísa aceitou. Guardada em sua clutch, uma pétala que já não tinha cor. Ainda assim, ela a matinha consigo.
A semana que começou fora do calendário
Antes de acompanhar o desfecho, percorra os sete dias em que ausências, pétalas, telefonemas e segredos mudaram de lugar.
Entre 16 e 22 de agosto de 2026, o leitor acompanhará, capítulo a capítulo, o eletrizante final de Em uma crudelíssima semana.

