Por: Paulo Ricardo Zargolin
A mesa já estava posta antes mesmo que a manhã encontrasse seu próprio ritmo. Tudo parecia cedo demais. O café, os pães, a manteiga, a margarina, a família reunida em torno de uma calma excessivamente arrumada. Era o tipo de silêncio que não anuncia paz, apenas organização. Como se a casa inteira soubesse que certas portas não demorariam a se abrir.
O primeiro estrondo veio antes da oração.
Depois, passos.
Portas abertas com força demais para serem visitas.
— Polícia.
Léo não entendeu de imediato.
Olhou para o pai.
Depois para a mãe.
Depois para ninguém.
— O senhor está sendo conduzido para averiguação.
— O quê?
O pai não se levantou.
— Pai?
Silêncio.
— Isso é um absurdo.
A mãe deu um passo.
Parou.
O pai colocou a mão sobre a mesa.
Firme.
Suficiente.
— Ninguém se move.
As fotos deslizaram pela madeira.
Pararam diante de Léo.
Ele não tocou.
Mas viu.
O rosto mudou antes da compreensão completa.
— Pai, eu posso explicar… ele é só um amigo!
Nenhuma resposta.
A cadeira foi puxada.
O som arrastado no chão.
— Vamos.
Ao norte, uma porta também se abria.
Mas ali não havia mesa posta.
A luz entrou primeiro.
Depois as vozes.
Depois o movimento.
Amanda não perguntou.
Não precisava.
No alto de um prédio vizinho, alguém observava.
Sem pressa.
Sem surpresa.
As pétalas caíam devagar.
Como se não tivessem urgência.
Como se já soubessem o caminho.
Os carros da polícia refletiam o vermelho.
Luísa não sorriu.
Mas também não desviou o olhar.
O telefone chamou.
Uma vez.
— Alô?
— Você vai perder.
Silêncio.
— Já disse que não sou casado.
Ela fechou os olhos por um instante.
— Eu sei, você repetiu muito isso essa semana…
Pausa.
— Não estou falando dela.
Do outro lado, algo mudou.
Pequeno.
Mas suficiente.
A ligação caiu.
As pétalas continuavam descendo, lentas, obedientes, como se atendessem a um chamado antigo. Em algum ponto da cidade, o domingo ainda tentava sustentar sua aparência de desfecho. Mas já era tarde para isso. Havia coisas que não terminavam com a noite, apenas mudavam de posição. E, antes que a tarde pudesse ser convite ao descanso, uma nova semana já começava a respirar por baixo da porta.
A semana que começou fora do calendário
Antes de acompanhar o desfecho, percorra os sete dias em que ausências, pétalas, telefonemas e segredos mudaram de lugar.
Entre 16 e 22 de agosto de 2026, o leitor acompanhará, capítulo a capítulo, o eletrizante final de Em uma crudelíssima semana.




