Em uma insistente quarta-feira

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Na quarta-feira, o escritório já não tentava disfarçar.

A ausência de Amanda deixara de ser um comentário lateral.

Agora era assunto central, reorganizando o ritmo de tudo. As tarefas seguiam, mas sem convicção. As conversas, sim — essas ganhavam corpo.

— Já avisaram a família?

— A polícia deve entrar nisso.

— O marido… ninguém sabe direito o que ele fez.

As frases se acumulavam como versões mal encaixadas de uma mesma história.

Cada uma parecia explicar algo. Nenhuma explicava o suficiente.

Luísa ouvia.

Ou fingia ouvir.

Desde o dia anterior, havia algo que não se acomodava dentro dela.

Uma sensação persistente, como um ruído baixo demais para ser ignorado — e alto demais para ser esquecido.

Ela voltou à recepção no meio da manhã.

Não precisava de nada.

Mas voltou.

O balcão estava limpo. O chão também.

Tudo em ordem.

Ainda assim, ela sabia exatamente onde olhar.

Aproximou-se devagar.

Por um instante, pensou que não encontraria nada — e quase se permitiu acreditar nisso.

Mas encontrou.

Outra pétala.

Menor. Mais escura. Já começando a perder a cor.

Luísa não a tocou.

Ficou apenas olhando, como se aquele fragmento pudesse confirmar algo que ela ainda não tinha coragem de formular.

Há sinais que não se repetem por acaso.

Ela sabia disso.

Sempre soube.

A lembrança veio sem aviso.

Não inteira. Nunca inteira.

Primeiro, o som.

O impacto seco.

Depois, o estilhaço.

O vidro se abrindo em fragmentos no chão.

E, por trás disso, as vozes.

A dele — mais alta do que o habitual.

A dela — tentando não acompanhar, mas já sem conseguir evitar.

Ricardo não gritava com frequência.

Por isso, quando gritava, havia algo de definitivo.

Ela ainda se lembrava da expressão dele.

Não exatamente de raiva.

Mas de algo mais difícil de sustentar.

Como se estivesse sendo interrompido.

Depois do impacto, veio o silêncio.

Um silêncio pesado, irregular, cheio de coisas que não haviam sido ditas até o fim.

Luísa esperara.

Talvez por mais palavras.

Talvez por um pedido.

Talvez por uma tentativa de voltar atrás.

Ricardo não fez nada disso.

Apenas recuou.

E foi esse recuo que ficou.

Mais do que o barulho.

Mais do que o vidro quebrado.

O término não fora calmo.

Mas também não fora concluído.

Tinha sido interrompido.

Como uma conversa que alguém decide encerrar antes da resposta.

Luísa desviou o olhar da pétala.

Endireitou o corpo.

E voltou para a mesa como quem retorna de um lugar que não queria revisitar.

No escritório, alguém comentava sobre imagens de câmera.

Outro falava em registros de entrada.

A palavra “sequestro” ainda não era dita com clareza.

Mas já circulava.

Sem nome.

Sem forma.

Mas presente.

Luísa sentou-se.

Ligou o computador.

Desligou.

Ligou de novo.

Os gestos não levavam a lugar algum.

Pegou o celular.

Abriu a lista de contatos.

Desceu.

Parou.

O nome ainda estava lá.

Não havia sido apagado.

Nem bloqueado.

Nem esquecido.

O polegar hesitou.

Por um segundo.

Dois.

Três.

Ela não ligou.

Mas, dessa vez, não conseguiu guardar o aparelho imediatamente.

Ficou olhando.

Como se, ao encarar o nome por tempo suficiente, alguma resposta pudesse surgir dali.

Não surgiu.

Mas algo mudou.


Do outro lado da cidade, Amanda já não tentava se soltar o tempo todo.

O corpo aprendera o limite.

Agora, ela escutava.

Com atenção.

Com método.

Os passos não eram sempre os mesmos.

Havia mais de uma pessoa.

Ela tinha certeza.

Pelo peso. Pelo ritmo. Pela forma como o chão reagia.

Em determinado momento, alguém abriu a porta do cômodo.

A luz não entrou completamente, mas alterou o ar.

Isso bastava.

Amanda manteve os olhos fechados.

Aprendera rápido.

Ver nem sempre ajuda.

Uma voz surgiu.

Baixa.

Controlada.

Outra respondeu.

Mais distante.

Ela não compreendeu as palavras.

Mas compreendeu o tipo de conversa.

Não era improviso.

Era organização.

E, naquele instante, Amanda percebeu algo que não sabia explicar: aquilo não tinha começado por ela.


No escritório, Luísa voltou a olhar para o celular.

O nome ainda estava lá.

Agora, não parecia mais um resquício.

Parecia um ponto de partida.

Ela não ligou.

Ainda não.

Mas já não era mais possível fingir que aquilo não dizia respeito a ela.

Porque algumas coisas não terminam.

Elas apenas mudam de forma.

A semana que começou fora do calendário

Antes de acompanhar o desfecho, percorra os sete dias em que ausências, pétalas, telefonemas e segredos mudaram de lugar.

Uma chamada especial aos assinantes Semente

Entre 16 e 22 de agosto de 2026, o leitor acompanhará, capítulo a capítulo, o eletrizante final de Em uma crudelíssima semana.

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