Por: Paulo Ricardo Zargolin
Entre Matrix e Monstros S.A., o medo deixa de ser apenas sentimento e aparece como combustível de sistemas inteiros. Mas talvez o riso, essa falha quase infantil, revele que nem todo mundo precisa continuar funcionando à base de susto.
Alguns medos não gritam; sussurram.
Chegam antes da palavra, antes da razão, antes mesmo de sabermos que há algo a temer. Na infância, eles se disfarçam de escuro, de porta entreaberta, de corredor comprido, de ausência que demora um segundo a mais do que deveria. Em algum lugar da vida, alguém aprende que sentir medo não é apenas possível; é esperado. Como se o mundo, antes de ser vivido, precisasse ser evitado. Como se existir fosse, desde cedo, um cálculo.
E então crescemos.
Descobrimos que o medo não ficou no quarto. Ele apenas mudou de roupa. Agora atende por nomes mais sofisticados: fracasso, inadequação, atraso, rejeição, exposição. A escola, com sua régua silenciosa, não precisa dizer “tenha medo” — basta medir. Basta comparar. Basta transformar o erro em espetáculo discreto. Assim, sem alarde, o medo deixa de ser visitante e passa a ser método. Um guia invisível que orienta escolhas, poda impulsos e organiza trajetórias.
É curioso: ninguém se levanta de manhã dizendo “hoje vou sustentar um sistema baseado no medo”. Ainda assim, o sistema se sustenta.
Talvez porque ele não se apresente como sistema. Talvez porque ele se infiltre como necessidade. Talvez porque, quando o medo é repetido por tempo suficiente, ele deixa de parecer violência e começa a parecer prudência.
Na vida adulta, o medo atinge sua forma mais elegante. Já não paralisa; movimenta. Levanta cedo, cumpre metas, evita riscos, antecipa perdas, calcula silêncios. Em Matrix, os corpos dormem enquanto alimentam uma estrutura que não precisa odiá-los para existir. Em Monstros S.A., o susto vira recurso, engarrafado com eficiência quase burocrática. Não há, necessariamente, vilões escancarados em cada ponta da engrenagem. Há trabalhadores. Há protocolos. Há metas. Há uma lógica que não se pergunta se é justa; apenas se funciona.
E funciona.
Funciona porque o medo é produtivo. Ele antecipa o erro, acelera a resposta, impede a ruptura. Ele mantém as engrenagens girando mesmo quando ninguém mais lembra quem as construiu. Não é preciso que haja uma entidade, sugando sofrimento em algum trono invisível. Basta que exista um modelo dependente dele. Um circuito que se retroalimenta: quanto mais você teme, mais você se ajusta; quanto mais se ajusta, mais o sistema se confirma.
Nesse ponto, os demiurgos deixam de ser figuras distantes e passam a ser estruturas íntimas. Não habitam apenas mitologias, máquinas ou mundos simulados. Habitam o hábito. Não vigiam somente de fora; operam por dentro. São a repetição que se naturaliza, a lógica que não se questiona, o roteiro que se cumpre sem leitura prévia. Se há algo sendo extraído, não é apenas energia mística, elétrica ou fantasiosa. É adesão. É obediência. É a disposição silenciosa de continuar funcionando apesar da dor.
E, no entanto, há uma falha.
Pequena. Quase infantil.
Em Monstros S.A., alguém descobre que o riso produz mais energia que o medo. Não um pouco mais; muito mais. O suficiente para tornar obsoleto todo um sistema cuidadosamente construído sobre sustos, portas, gritos e treinamentos. Não se trata de uma revolução violenta. Trata-se de uma substituição silenciosa: trocar o motor sem precisar desmontar imediatamente toda a máquina.
É aí que podemos respirar.
Porque, se o medo organiza, o riso desorganiza. Se o medo prevê, o riso surpreende. Se o medo sustenta, o riso transforma. E transformação é sempre um risco — não para quem vive, mas para aquilo que depende de uma única forma de funcionamento.
Talvez seja por isso que rir, às vezes, pareça um ato indevido. Como se fosse leve demais para um mundo acostumado ao peso. Como se desafinasse uma música executada há tempo demais. Como se dissesse, sem discurso e sem manifesto: talvez não precisemos sofrer tanto para que tudo continue de pé.
Matrix e Monstros S.A. parecem, à primeira vista, habitar universos muito distantes: uma distopia filosófica de máquinas, simulação e corpos adormecidos; uma animação sobre monstros trabalhadores que assustam crianças para produzir energia. Mas os dois imaginários encostam no mesmo ponto: há sistemas que aprendem a extrair força daquilo que os seres sentem sem compreender. E há momentos raros em que alguém percebe que outro combustível era possível.
No fim, a questão não é descobrir se há demiurgos escondidos nas sombras. É perceber o quanto de luz ainda não foi aceso porque aprendemos a viver com o interruptor desligado.
E, se, ainda que por um instante, for possível acendê-lo, talvez não seja o mundo que mude primeiro. Talvez seja o modo como ele deixa de precisar do nosso medo para continuar existindo.




