Maracangalha
Capítulo 12
Por: Paulo Ricardo Zargolin
O celular vibrou com um zumbido discreto, desses que não interrompem conversa, mas aprisionam pensamento. Ísis estava sentada à beira da cama, os pés descalços roçando o tapete puído que a casa teimava em manter, mesmo já sem cor. A luz do abajur fazia sombra nos cantos e rugas no tempo. O dia havia sido árido — mais pela linguagem truncada dos corredores da prefeitura do que pelo calor que lhe colava as roupas à pele.
Ela desbloqueou a tela como quem coça uma dúvida. Não havia chamadas perdidas. Nenhum e-mail. Apenas uma notificação: mensagem recebida de “Sombra11”. Nome banal demais para parecer falso. E, talvez por isso mesmo, falso demais para ser banal.
Apertou com o polegar.
“Você já tirou a poeira de pelo menos um papel? Porque se não achou motivo pra essa cidade travar no tempo, é porque ainda tá lendo de olhos fechados.”
A mensagem parecia escrita por alguém que ainda brincava de adivinhar segredos — ou que começava a entendê-los. A pontuação flutuava. A linguagem oscilava entre uma tentativa de truculência advinda da franqueza de quem aprendeu a observar calado. Nenhuma assinatura. Nenhum emoji. Nenhum convite. Apenas o recado, seco e exato.
Ísis permaneceu olhando a tela. A mensagem foi apagada tão logo quanto a outra parte recebeu a confirmação de leitura. Por alguns segundos, a casa ficou mais silenciosa que o habitual. Como se até os santos do oratório, os mesmos que Cristina limpava com álcool e fé, tivessem parado para escutar o que não foi dito.
Ela digitou “Quem é você?”, mesmo sabendo que quem se esconde por nickname não tinha pretensão de se revelar. Apagou. Preferiu enviar algo mais objetivo: “Sombra? Sério? Desconfio até da minha própria, então não pense que nossa conversa será fácil”.
Esperou. Nenhuma resposta. Nenhuma visualização. Nenhum sinal de que a pergunta tivesse atravessado o véu.
Fechou o aplicativo, mas não o celular. Ficou com ele nas mãos, como quem segura uma granada sem pino. Um mosquito zumbia na lâmpada. A casa respirava num ritmo próprio — entre o torpor e o vigiar.
No corredor, passos leves. A porta se abriu meio centímetro, sem ranger.
— Tudo bem? — era Laura. Usava um moletom cinza, o cabelo preso num coque de lado.
Ísis colocou o celular devagar sobre a escrivaninha, deixando a dúvida ganhar forma.
— Só uma notificação estranha — respondeu, tentando rir. — Aqueles trotes modernos. Gente que gosta de bancar a Esfinge.
— E você… gosta disso? De enigmas?
— Gosto de solução. Enigma é só o começo — respondeu. — Mas confesso: tenho medo de quando o começo finge ser o fim.
Laura assentiu, sem entender tudo, mas compreendendo o tom. Foi até a beira da cama e sentou, pedindo abrigo sem invadir espaço.
— Às vezes… eu também recebo mensagens — murmurou. — Não no celular. Na cabeça. Uma frase solta. Um aviso. Mas sem remetente.
Ficaram assim. As duas. Em silêncio. Um silêncio diferente daquele que sempre coube na casa. Era silêncio de espera. De uma resposta que não vinha — ou que talvez já estivesse ali, entre o celular e a intenção.
O silêncio demorou a se dissolver. Na penumbra do quarto, as respirações se ajustavam como se tentassem encontrar o mesmo ritmo — não por sincronia, mas por escuta mútua. Laura apoiou os cotovelos nos joelhos. As mãos unidas em concha repousavam entre as pernas, como quem reza sem fé, só por instinto. A luz do abajur batia de lado em seu rosto, ressaltando o vinco das olheiras e a curva do queixo. Havia cansaço ali, mas um cansaço antigo, o tipo que não se resolve com sono.
— E você… — começou, com voz de água parada — nunca pensou em ir embora?
Laura levou um segundo para responder. Depois sorriu, daquele jeito que não pede alegria, mas compreensão.
— Ir embora… — repetiu, pensativa.
— Sim, esse é o verbo mais conjugado da minha vida. Só que, quanto mais eu me movo, mais percebo que a bagagem vem comigo. Talvez seria uma boa experiência pra você.
— E o que você carrega? — perguntou Laura, sem ironia.
— Raiva. Esperança. Uns textos mal escritos. A vontade de provar que as coisas podem mudar. Mesmo sabendo que a mudança começa no lugar que mais dói.
A resposta ficou entre elas como fumaça. Não subia nem dissipava. Só pairava, impregnando o ar.
Laura então se levantou. Caminhou até a janela, abriu a fresta. O vento da noite trouxe um cheiro de terra molhada, embora não houvesse chuva. Era só o presságio de algo que se aproximava.
— Às vezes… — disse ela, de costas — eu penso que nasci errada. Que fui semeada no lugar errado, na época errada. Que o que eu sou… não encaixa aqui.
Virou-se. Os olhos brilhavam, não de lágrima, mas de honestidade crua. Ísis não disse nada. Apenas a olhou — e nesse olhar havia acolhimento e risco. Porque há silêncios que abraçam. Mas há também os que desnudam.
— Você já leu as cartas? — perguntou Ísis, baixando um pouco o tom.
— Não todas. Algumas eu queimei. Outras… eu apenas dobrei e escondi. Como se dobrar palavras bastasse para calá-las.
Sentou-se novamente. Agora mais perto.
— A primeira vez que alguém me escreveu algo de verdade… foi minha mãe. Ela pediu perdão. Mas era um perdão vazio. Sabe quando alguém bate a porta e diz “desculpa” só porque quebrou o trinco, e não porque te trancou por dentro? É mais ou menos isso…
Ísis estendeu a mão, devagar. Não para segurar, mas para estar ali. Laura não a afastou. Apenas fechou os olhos. A concha que, antes, guardava o mar, agora parecia guardar o gesto.
A tela do celular acendeu novamente. Ísis não resistiu. Consultou rapidamente. Nova mensagem do perfil:
“Se você já viu, não diga. Mas se ainda não viu… cuidado com quem limpa a sujeira rápido demais. Às vezes, é só poeira jogada pra debaixo do tapete do altar.”
Ísis não respondeu. Apenas virou a tela para baixo e deixou o quarto mergulhar de novo no escuro.
Na rua, um cachorro latiu, na intenção hipotética de avisar que a noite ainda não terminou. E, dentro do quarto, sem se darem conta, duas presenças aprenderam a permanecer. Mesmo diante do que não se vê.




