Aline percebeu que ele era influencer antes mesmo de ouvir seu nome. O celular chegou primeiro. Depois vieram o sorriso treinado, a barba geometricamente aparada e uma frase sobre “produzir conteúdo com propósito”. Ela sentiu fome. Não exatamente dele — mas fome era fome, e havia noites em que até uma vampira precisava aceitar o que o algoritmo entregava.
— Você trabalha com o quê? — perguntou, apenas para confirmar a tragédia. Ele explicou que inspirava pessoas, embora não soubesse dizer exatamente a fazer o quê. Falou de engajamento, posicionamento, rotina de alta performance e de uma viagem a Bali que ainda não fizera, mas já estava negociando. Quando Aline finalmente aproximou os dentes do pescoço, ele afastou o cabelo e perguntou se ela poderia esperar dois segundos. Queria gravar. “Esse tipo de experiência performa muito.”
Aline ficou olhando para ele durante um longo silêncio. Quatrocentos anos bebendo sangue humano e jamais havia considerado o vegetarianismo. Naquela noite, considerou.

