Nostalgrafia Especial: Que monstro vai te morder agora?

Houve um tempo em que os monstros moravam debaixo da cama, tinham caudas, cicatrizes e cores estranhas. Depois a gente cresceu. E descobriu que nem toda monstruosidade vem com dentes à mostra.

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Houve um tempo em que ser monstro parecia uma coisa relativamente simples.

O monstro tinha dentes demais. Olhos demais. Braços demais. Podia ser verde, azul, peludo, gosmento ou simplesmente ter alguma coisa no rosto que faria qualquer adulto responsável recomendar distância.

Era uma lógica confortável.

Você olhava.

Reconhecia.

Corria.

Aí veio Que Monstro Te Mordeu? e bagunçou um pouco essa história.

Na série, o universo monstruoso não existia apenas para assustar. Os monstros tinham inseguranças, afetos, vaidades, medos e uma quantidade bastante razoável de problemas para criaturas que, teoricamente, deveriam estar ocupadas aterrorizando crianças.

E talvez por isso uma das cenas que ficaram mais bonitas naquele universo seja justamente aquela em que Lali canta “Mais Normal”.

Ela olha para si e percebe aquilo que aparentemente lhe falta.

Um nariz diferente seria mais interessante.

Uma cauda talvez ajudasse.

Uma cicatriz apavorante cairia bem.

Ser azul também resolveria alguma coisa.

Até sua própria voz parecia inadequada justamente porque era bonita demais para produzir terror.

O problema de Lali era curioso: ela não parecia monstruosa o suficiente para pertencer aos monstros.

Então começa a desejar aquilo que acredita ser necessário para caber.

Até perceber a armadilha.

Porque, se para ser “mais normal” ela precisasse se tornar exatamente igual a quem não era igual a ela, talvez aquilo não fosse normalidade.

Talvez fosse apagamento.

No fim, a conclusão é quase simples demais para a quantidade de tempo que nós, humanos, levamos para aprender: não seria legal deixar de ser igual a si mesma.

Bonito.

Infantil.

E perigosamente adulto.

A gente cresceu. Os monstros também.

Talvez seja essa uma das coisas mais curiosas da nostalgia.

Nós voltamos a determinadas obras esperando encontrar exatamente aquilo que deixamos nelas.

Mas não encontramos.

Porque a obra pode até ser a mesma.

Nós é que voltamos diferentes.

A criança olha para Que Monstro Te Mordeu? e talvez enxergue criaturas estranhas tentando descobrir quem são.

O adulto olha e começa a reconhecer uma discussão sobre pertencimento, diferença, identidade e aquela velha mania humana de construir uma régua chamada “normal” e depois passar a vida medindo os outros com ela.

Só que existe uma pergunta que a infância talvez ainda não estivesse preparada para fazer.

Se ser diferente não torna ninguém monstruoso…

o que torna?

É aí que a conversa começa a ficar interessante.

Porque dentes não bastam.

Chifres também não.

Uma verruga enorme no nariz é completamente inconclusiva.

Ser azul não prova nada.

E, depois de certa idade, descobrimos uma coisa ligeiramente desagradável:

há pessoas absolutamente humanas capazes de produzir monstruosidades impressionantes sem precisar de uma única gota de sangue sobrenatural.

Aliás, às vezes usam crachá.

Às vezes têm podcast.

Às vezes escrevem “gratidão” na bio.

Às vezes chamam preconceito de princípio.

Às vezes chamam exploração de comprometimento.

Às vezes chamam abandono de correria.

Às vezes chamam humilhação de “ser um cliente exigente”.

E, frequentemente, vão dormir tranquilas depois.

Sem cauda.

Sem cicatriz.

Sem nenhum passarinho fugindo quando começam a cantar.

Talvez tenhamos procurado monstros no lugar errado

Durante muito tempo, histórias ensinaram crianças a procurar monstros no escuro.

Debaixo da cama.

Dentro do armário.

Atrás da porta.

Era um erro estratégico.

Depois que crescemos, alguns deles mudaram de endereço.

Foram para reuniões.

Relacionamentos.

Grupos de família.

Aplicativos.

Empresas.

Redes sociais.

Filas.

Restaurantes.

Consultórios.

Condomínios.

Comentários na internet.

Alguns começaram a gravar vídeos dizendo como os outros deveriam viver.

Outros descobriram a palavra mindset.

E houve aqueles que simplesmente continuaram fazendo exatamente aquilo que sempre fizeram, apenas encontrando vocabulários mais elegantes para justificar.

Talvez essa seja uma das diferenças fundamentais entre o monstro infantil e o monstro adulto.

O primeiro geralmente sabe que é monstro.

O segundo costuma ter argumento.

E se o monstro for gente boa?

Agora imagine uma vampira.

Ela bebe sangue.

Claramente temos um problema.

Uma bruxa conhece ingredientes que não deveriam estar disponíveis em nenhuma prateleira de supermercado.

Outro problema.

Um lobisomem perde parte considerável da capacidade de negociação quando aparece lua cheia.

Problema evidente.

Um bicho-papão passou séculos aterrorizando crianças.

Complicado.

Um demônio dispensa apresentações.

Uma múmia está oficialmente morta há tempo demais para preencher cadastro bancário sem gerar perguntas.

Um poltergeist interfere em objetos, luzes, portas e, eventualmente, equipamentos que deveriam continuar funcionando.

E a Morte…

Bem.

É a Morte.

A pergunta parece resolvida.

Esses são os monstros.

Só que não.

Porque talvez seja fácil demais definir monstruosidade pela natureza de alguém.

Muito mais difícil é observar o que essa pessoa — ou criatura — faz com aquilo que carrega.

Uma vampira pode ter fome e ainda estabelecer limites.

Uma bruxa pode ter poder e escolher não usá-lo contra qualquer um que a irrite.

Um bicho-papão pode descobrir que existem adultos fazendo muito mais mal às crianças do que ele jamais fez.

Um poltergeist pode perceber que uma brincadeira teve consequências e decidir que não quer repeti-la.

Até o capeta pode encontrar certas práticas humanas e concluir:

“Isso aí também já é demais.”

É nesse momento que a divisão confortável desaparece.

De um lado não estão os humanos.

Do outro não estão os monstros.

Estamos todos misturados.

O problema nunca foi a espécie.

Todo mundo tem alguma monstruosidade

Talvez a grande pergunta não seja:

“Você é um monstro?”

Provavelmente somos, em alguma medida.

Pode ser uma crueldade pequena.

Uma indiferença.

Uma covardia.

Uma arrogância que aparece apenas quando estamos diante de alguém que consideramos inferior.

Uma vontade de ferir quando somos rejeitados.

O prazer de vencer uma discussão mesmo sabendo que destruímos alguém no processo.

A capacidade de justificar aquilo que jamais aceitaríamos se fosse feito conosco.

Talvez algumas monstruosidades sejam apenas sombras.

Outras crescem.

Algumas aprendemos a conter.

Outras alimentamos todos os dias e ainda damos um nome bonito para elas.

Por isso talvez haja uma pergunta mais interessante:

Todo mundo tem alguma monstruosidade. A questão é o que você faz com a sua.

Você a reconhece?

Controla?

Alimenta?

Transforma em profissão?

Coloca na internet?

Cobra assinatura?

Vende curso?

Chama de personalidade forte?

Ou só espera que ninguém perceba?

Que monstro vai te morder agora?

Em outubro, os monstros vão ocupar o Logosgrafia.

Todos os dias.

Às 23h.

Eles vão trabalhar, namorar, sair para beber, frequentar terapia, abrir conta bancária, usar aplicativos, discutir relacionamentos, encontrar gente insuportável e tentar sobreviver a uma realidade que, em alguns momentos, parecerá muito mais absurda do que qualquer maldição sobrenatural.

A série se chama Prato da Noite.

Mas não espere descobrir quem é o monstro olhando para os dentes.

Às vezes, quem tem presas é a pessoa mais razoável da mesa.

Às vezes, quem deveria assustar crianças está tentando protegê-las.

Às vezes, quem veio diretamente do inferno só queria cancelar a internet.

E às vezes alguém perfeitamente humano entra numa sala e consegue ser a criatura mais assustadora dali.

Quando éramos crianças, talvez a pergunta fosse:

Que monstro te mordeu?

Agora crescemos.

Talvez esteja na hora de perguntar outra coisa.

Que monstro vai te morder agora?

E, principalmente: quando ele chegar, de que lado do prato você estará?

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