MAGENTA! apresenta: #OJogo
Quarta parte — A última decisão
Capítulo 16
No escuro, Paulinho ouviu a própria respiração.
Depois a de Lia.
Ainda estava ali.
Isso podia significar que ele não terminara.
Ou que errara.
Ou que o jogo gostava de alguns segundos de crueldade antes de responder.
Davi teria gostado da terceira hipótese.
Caio teria reclamado dela.
Lia falou no escuro:
— Termina.
Paulinho fechou os olhos, embora não fizesse diferença.
Declarou a natureza.
Depois o primeiro quadrante.
O segundo.
O terceiro.
No último, hesitou.
Não porque tivesse mudado de ideia.
Porque entendeu que aquela era a última coisa que ainda podia adiar.
— Preto.
Silêncio.
Uma luz acendeu no centro da mesa.
Pequena.
Magenta.
Lia estava diante dele.
Não sorria.
Também não parecia com medo.
A frase surgiu entre os dois.
ACUSAÇÃO CORRETA.
Paulinho soltou o ar.
Lia olhou para a própria carta quando o Compartimento se abriu.
Tudo estava exatamente como ele declarara.
— Você acertou.
— Eu sei.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Agora sabe.
Paulinho quase respondeu.
Não deu tempo.
A cadeira de Lia começou a recuar.
Ele tentou levantar.
Dessa vez, conseguiu.
— Lia.
Ela olhou para a sombra atrás de si.
— Se o Davi estiver lá, eu vou me arrepender de ter acertado.
— E o Caio?
— Provavelmente procurando bolo.
A cadeira continuou.
Paulinho deu a volta na mesa.
— Espera.
Lia riu.
— Você continua falando isso como se funcionasse.
Foi a última coisa que disse antes de desaparecer.
Paulinho ficou sozinho.
A mesa começou a se desfazer.
Não quebrava.
Esquecia a própria forma.
As bordas perderam nitidez. As cadeiras sumiram. As folhas ficaram brancas. As cartas herdadas por Lia desapareceram antes de chegar até ele.
A última acusação não tinha herdeiro.
A caixa permaneceu.
Pequena.
Fechada.
Exatamente como no início.
Paulinho aproximou-se.
Sobre a tampa havia uma frase.
UM JOGADOR PERMANECEU.
Ele lembrou da Mesa 63.
Do Arquivo.
Da letra M.
— Permaneci onde?
A caixa não respondeu.
Paulinho tocou a tampa.
No canto inferior surgiu um círculo minúsculo.
Dentro dele:
M
Magenta.
Talvez uma cor.
Talvez outra coisa.
Paulinho sentiu medo.
Mas não do tipo que manda correr.
Do tipo que pede atenção.
A frase do Arquivo voltou inteira.
NÃO CONFUNDA PERMANECER COM FICAR.
Então ele entendeu.
Não precisava ficar ali.
Paulinho abriu os olhos.
O ventilador girava acima da cama.
A cortina filtrava a manhã.
A cadeira gamer estava ao lado.
A porta, fechada.
Por alguns segundos, não se mexeu.
Esperou a mesa.
Esperou a linha magenta.
Esperou uma frase aparecer em algum lugar.
Nada.
Sentou-se.
Estava no quarto da casa da avó.
A mochila permanecia no chão.
Paulinho olhou para ela.
Fechada.
Não tocou.
Ainda não.
Primeiro ouviu.
A casa tinha sons.
Sons comuns.
Uma panela na cozinha.
Água correndo.
Um carro passando na rua.
Rua.
Paulinho levantou-se depressa e abriu a cortina.
Havia céu.
Muro.
Árvore.
Uma bicicleta encostada no portão.
Lá fora existia.
Ele riu sozinho.
Depois parou.
Na escrivaninha havia quatro lápis.
Paulinho tinha certeza de que antes havia um.
Olhou para a mochila.
O zíper continuava fechado.
Decidiu deixá-lo assim.
Saiu do quarto.
O corredor era o corredor.
Nenhum Arquivo.
Nenhuma porta sem maçaneta.
Nenhum quadro de casa sem entrada.
Chegou à cozinha.
A avó estava de costas, mexendo alguma coisa no fogão.
Na mesa havia café, pão, manteiga e um bolo coberto por um pano.
Paulinho ficou olhando para o bolo.
A avó percebeu.
— Pode cortar.
Ele riu.
— O quê? — ela perguntou.
— Nada.
Sentou-se.
Havia quatro copos sobre a mesa.
Não cinco.
Quatro.
Paulinho contou mesmo assim.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
A avó colocou uma caneca diante dele.
— Dormiu bem?
Paulinho pensou.
— Acho que sim.
Ela assentiu, como se fosse resposta suficiente.
Voltou para o fogão.
Paulinho levou a caneca à boca.
Foi então que ela perguntou, com a naturalidade de quem perguntava qualquer coisa:
— Os seus amigos ainda estão dormindo?
(fim)

