No dia 15 de outubro, o professor acorda importante.
Talvez encontre uma mensagem no celular antes mesmo de sair da cama. Uma imagem com lápis coloridos, uma frase sobre transformar vidas, algum coração vermelho e a certeza de que ensinar é uma das profissões mais nobres do mundo.
Na escola, pode haver um café diferente.
Um bombom sobre a mesa.
Uma flor.
Um cartão feito pelas crianças.
Uma publicação nas redes sociais da prefeitura, da escola, da secretaria, do sindicato, da família, do ex-aluno, do político que talvez nunca tenha entrado numa sala de aula depois de adulto.
Durante vinte e quatro horas, quase ninguém ousa dizer que professor não é importante.
É bonito.
E talvez seja justamente por ser bonito que incomode tanto quando o dia seguinte chega.
Por que todo mundo valoriza o professor no Dia dos Professores?
Porque é relativamente fácil agradecer a uma categoria quando o agradecimento não exige nenhuma mudança.
Uma flor é gentil.
Um texto é gentil.
Uma fotografia acompanhada da frase “quem compartilha conhecimento merece parabéns todos os dias” também é gentil.
E não há ironia nisso. Professores gostam de carinho. Gostam de reencontrar alunos. Gostam quando alguém se lembra daquela explicação dada muitos anos antes, daquele livro indicado, daquela conversa no corredor, daquele conselho aparentemente pequeno que permaneceu na vida de alguém.
O problema nunca foi a homenagem.
O problema é quando ela funciona como substituta da valorização.
Porque, terminado o café comemorativo, voltam as planilhas.
Voltam os registros.
Voltam os prazos.
Voltam as mensagens enviadas fora do horário.
Voltam as salas cheias, as demandas familiares, os conflitos, os relatórios, as avaliações, as reuniões, as formações, os sistemas, as metas e a expectativa de que aquele profissional consiga resolver, dentro da escola, problemas que a própria sociedade não conseguiu resolver do lado de fora dela.
No dia 15, dizemos que o professor transforma o mundo.
No dia 16, perguntamos por que ele ainda não conseguiu.
O que significa valorizar um professor de verdade?
Talvez seja preciso começar pelo mais óbvio: professor é uma profissão.
Parece estranho precisar dizer isso.
Mas uma das armadilhas históricas da docência foi exatamente transformá-la em vocação antes de reconhecê-la como trabalho. Em outro texto do Logosgrafia, a provocação de que método não é coleira toca numa tensão parecida: profissão exige conhecimento, julgamento e espaço para decidir.
Quem ensina deve amar.
Quem ensina deve compreender.
Quem ensina deve ter paciência.
Quem ensina deve se adaptar.
Quem ensina deve fazer um pouco mais.
E, quando o “pouco mais” se repete durante anos, ele deixa de parecer extraordinário e passa a fazer parte da descrição invisível do cargo.
A professora compra alguma coisa para a atividade porque “é baratinho”.
O professor responde uma mensagem à noite porque “é rapidinho”.
Alguém termina um relatório em casa porque “amanhã precisa estar pronto”.
Outro procura um vídeo no domingo porque “vai ajudar a aula”.
Nada disso, isoladamente, parece grande. É assim que se constrói uma sobrecarga: em pequenos trabalhos que ninguém chama de trabalho. A repetição cotidiana desse desgaste também atravessa A rotina, o sofrimento e a aprendizagem, porque há sofrimentos institucionais que se tornam tão frequentes que começam a parecer parte natural da paisagem.
Valorizar professores, portanto, não é apenas discutir salário, embora seja impossível falar seriamente em valorização sem falar em remuneração.
É discutir carreira.
Tempo.
Condições materiais.
Número de estudantes.
Formação.
Autonomia.
Respeito ao conhecimento profissional.
Direito de planejar.
Direito de não saber imediatamente.
Direito de aprender.
E até o direito aparentemente banal de terminar um expediente.
Por que desconfiamos tanto de quem escolhemos para ensinar?
Existe ainda uma contradição curiosa.
Entregamos crianças e adolescentes aos professores durante boa parte de seus dias.
Esperamos que ensinem matemática, leitura, ciências, história e arte.
Esperamos que percebam dificuldades de aprendizagem.
Que identifiquem situações de violência.
Que acolham diferenças.
Que ajudem a mediar conflitos.
Que desenvolvam autonomia.
Que promovam inclusão.
Que ensinem convivência.
Que contribuam para a formação de cidadãos.
É uma responsabilidade imensa.
Mas essa confiança muitas vezes desaparece exatamente quando o professor exerce o conhecimento profissional que justificaria tamanha responsabilidade.
Então surgem as suspeitas.
Por que fez desse jeito?
Por que não fez daquele?
Por que a criança ainda não aprendeu?
Por que passou essa atividade?
Por que não passou outra?
Por que chamou a família?
Por que não chamou antes?
Por que interveio?
Por que não interveio?
O professor contemporâneo parece viver numa profissão em que se exige autonomia e, simultaneamente, se vigia cada movimento produzido por ela. Hoje, até a tecnologia acrescenta uma nova camada a essa vigilância. Em O professor que passou a corrigir a máquina, a docência aparece justamente como o trabalho de julgar, interpretar e corrigir aquilo que uma ferramenta automática não consegue assumir sozinha.
E talvez nenhuma homenagem consiga compensar completamente a sensação de ser chamado de essencial e tratado como permanentemente suspeito.
A valorização docente não cabe em uma postagem
O Brasil possui milhões de professores na educação básica.
Não estamos falando, portanto, de um pequeno grupo profissional isolado da experiência cotidiana do país. Estamos falando de gente presente em praticamente todos os bairros, municípios e famílias.
Quase todos tivemos professores.
Muitos convivemos com algum.
E boa parte das coisas que hoje sabemos fazer passou, em algum momento, pela intervenção de alguém que decidiu ensinar.
Talvez por isso o Dia dos Professores produza tantas memórias.
A primeira professora.
O professor engraçado.
A professora rigorosa.
Aquele que parecia acreditar em nós quando ainda não havia muitas razões para acreditar.
Aquele de quem discordávamos.
Aquela aula que só ganhou sentido vinte anos depois.
A docência deixa rastros.
Mas memória afetiva e política pública são coisas diferentes.
Uma sociedade pode amar a lembrança de seus professores e, ao mesmo tempo, construir condições ruins para aqueles que estão ensinando agora.
Pode publicar fotografias de antigos mestres enquanto os atuais trabalham exaustos.
Pode repetir que educação é prioridade sem transformar prioridade em orçamento, planejamento, carreira, estrutura e tempo.
Pode até dizer que professor merece reconhecimento.
Reconhecimento, porém, é uma palavra perigosamente confortável quando não precisa produzir consequências.
E no dia 16 de outubro?
A flor talvez ainda esteja sobre a mesa.
O bombom provavelmente acabou.
Alguns cartões permanecerão guardados numa gaveta.
As mensagens das redes sociais começarão a desaparecer sob novas publicações.
E haverá aula.
Essa talvez seja a imagem mais precisa da profissão.
Não o professor heroico diante de uma lousa iluminada.
Não a frase de efeito sobre formar todas as outras profissões.
Não a fotografia comemorativa.
Mas alguém chegando novamente à escola na manhã seguinte.
Abrindo a porta.
Organizando materiais.
Respondendo perguntas.
Tentando compreender por que uma criança não conseguiu fazer aquilo que ontem parecia tão simples.
Mudando uma explicação.
Recomeçando.
Porque professores trabalham também quando ninguém está homenageando professores.
Talvez a melhor comemoração possível para o dia 15 de outubro fosse imaginar o dia 16.
E perguntar, com menos flores e um pouco mais de consequência:
Que condições estamos oferecendo para que essa pessoa continue querendo ensinar amanhã?
Porque defender o professor durante um dia é fácil.
Difícil, e muito mais importante, é construir uma sociedade que não precise pedir desculpas a ele nos outros trezentos e sessenta e quatro.

