Ou sobre a estranha pretensão de escrever para quem talvez nunca venha a ler.
Ontem publiquei treze razões para eleger Flávio Bolsonaro.
Treze. Não doze, não quatorze. Treze.
Poderia ter escolhido outro número, mas perderia parte da graça. E a graça, convenhamos, é uma coisa séria demais para ser desperdiçada.
O texto apresentava treze virtudes do candidato. Ele é do bem, combate a corrupção, trabalha muito, protege as mulheres, defende a educação, respeita a Justiça e tem um plano para o Brasil.
Tudo muito bonito.
O inconveniente é que, abaixo de cada elogio, havia acontecimentos, documentos, votações e reportagens. Essas coisas desagradáveis que insistem em existir independentemente daquilo que gostaríamos de acreditar.
Mas não pretendo explicar a piada. Explicar uma ironia é uma dessas atividades humanas que deveriam exigir licença ambiental: quase sempre termina com a destruição do que havia de mais interessante na paisagem.
Interessa-me outra coisa.
Publiquei o texto no Logosgrafia, esse pequeno território da internet cuja existência não chega a perturbar o sono dos algoritmos. Se desaparecesse amanhã, dificilmente haveria uma reunião extraordinária no Vale do Silício para investigar o ocorrido.
Talvez nem em Birigui.
E, no entanto, publiquei.
Há alguma coisa filosoficamente interessante em colocar palavras no mundo sem qualquer garantia de que encontrarão alguém disposto a recebê-las.
A internet prometeu que todos poderiam falar. Esqueceu-se apenas de esclarecer que, quando todos falam ao mesmo tempo, ouvir se transforma numa atividade quase revolucionária.
Contamos visualizações, curtidas e seguidores como se estivéssemos medindo a densidade de uma ideia.
E se três leitores compreenderem aquilo que um milhão apenas percorreu com os olhos?
Às vezes, imagino o Logosgrafia como uma biblioteca aberta numa rua pela qual quase ninguém passa. As luzes permanecem acesas, as estantes continuam sendo organizadas e novos livros chegam todos os dias.
O bibliotecário, um tanto excêntrico, segue trabalhando.
Não porque tenha certeza de que alguém entrará, mas porque considera um absurdo fechar a biblioteca só porque a rua está vazia.
Talvez seja teimosia. Ou uma espécie de vaidade às avessas: a pretensão de pensar sem a pretensão de ser ouvido.
Volto às treze razões.
Não inventei acusações para produzir uma caricatura. Reuni informações publicadas, distingui suspeitas de decisões judiciais, examinei propostas e deixei que os próprios registros dialogassem com os elogios.
A ironia estava na distância entre o título de cada razão e aquilo que vinha logo abaixo.
Para percebê-la, entretanto, era necessário ler.
O texto inteiro, de preferência.
Vivemos numa época em que uma manchete frequentemente basta para formar uma opinião. A indignação chega antes da compreensão, e a certeza dispensa o inconveniente trabalho de investigar.
Não espero concordância. Quero leitores capazes de questionar inclusive minhas próprias conclusões.
Mas há uma diferença entre discordar de um argumento e desconhecê-lo.
Talvez seja essa a verdadeira provocação das treze razões: não basta saber o que alguém promete ser. É preciso examinar o que fez, o que propõe e o que os documentos permitem afirmar.
A brincadeira, nesse caso, não substitui a investigação. Nasce dela.
No Logosgrafia, uma reflexão pode terminar numa pergunta filosófica. Em outras ocasiões, uma investigação termina numa piada. Em outra crônica sobre a dimensão política de nossos gestos, a pergunta tomou um caminho diferente.
Não considero isso uma incoerência.
Pensar não é permanecer eternamente com a mesma expressão facial.
Aliás, desconfio um pouco das pessoas que nunca riem das próprias ideias. Há uma solenidade excessiva que transforma qualquer opinião em monumento e qualquer divergência em vandalismo.
Não alimento a fantasia de que uma crônica publicada num pequeno site modificará os rumos de uma eleição. Quero apenas conservar um lugar onde seja possível pensar, experimentar e escrever sem negociar permanentemente com a expectativa de aprovação.
A pequenez do Logosgrafia é uma circunstância, não um princípio.
Ontem, publiquei treze razões.
Hoje, o resultado das urnas trouxe outra notícia: Lula venceu.
Não reivindico qualquer participação do bibliotecário nesse acontecimento. Seria uma pretensão absolutamente desproporcional.
Mas confesso que o desfecho acrescentou uma camada inesperada à brincadeira.
Afinal, o texto oferecia treze razões para uma escolha. O eleitorado, em sua maioria, fez outra.
E, enquanto o Brasil segue discutindo suas escolhas, o bibliotecário continuará organizando as estantes.
Se algum visitante entrar, espero que não tenha pressa.
Há muita coisa por aqui.
E algumas, inclusive, precisam ser lidas até o fim.

