Uma sátira sobre as virtudes anunciadas e as notícias que insistem em aparecer.
1. ELE É DO BEM
Ana Clara tinha cinco anos quando morreu atingida por um tiro durante uma operação policial. Flávio Bolsonaro atuou gratuitamente na defesa do policial acusado e participou de um recurso para evitar seu julgamento pelo Tribunal do Júri. O senador afirma acreditar na inocência do agente. A mãe da menina contesta essa versão. A tragédia permanece; a discussão sobre o caso ganhou os palanques.
2. ELE É CONTRA A CORRUPÇÃO
Flávio Bolsonaro foi denunciado no escândalo das rachadinhas, processo posteriormente arquivado após a anulação de provas. O Ministério Público também apontou suspeitas de lavagem de até R$ 2,1 milhões por meio de uma franquia da Kopenhagen, enquanto uma investigação do UOL identificou 51 imóveis adquiridos total ou parcialmente com dinheiro vivo pela família Bolsonaro. Mais recentemente, a disputa pela Ilha Comprida, em Angra dos Reis, passou a integrar uma investigação policial envolvendo pessoas próximas ao senador.
3. ELE TRABALHA MUITO
Flávio Bolsonaro começou cedo: aos 19 anos, recebia salário da Câmara dos Deputados por um cargo de 40 horas semanais em Brasília, enquanto frequentava a faculdade de Direito e fazia estágio no Rio de Janeiro. O emprego, ocupado anteriormente por sua madrasta, rendia R$ 4.712 mensais em 2001 e nem sequer aparecia em seus currículos. A BBC revelou a incompatibilidade das atividades, levantando suspeitas de que fosse funcionário fantasma. Três compromissos presenciais, duas cidades e um salário público. Uma estreia profissional que merece explicações.
4. ELE QUER MUDANÇA
Seu plano de governo propõe reduzir competências do Supremo Tribunal Federal. O documento também prevê reformas institucionais e alterações nas regras penais. É uma mudança considerável, sobretudo para quem acredita que o funcionamento das instituições importa tanto quanto a identidade de quem as ocupa.
5. ELE GOSTA DE CRIANÇA
Seu programa defende reduzir a maioridade penal para 16 anos e endurecer punições aplicáveis a adolescentes a partir dos 14. O Estatuto da Criança e do Adolescente continuaria existindo, mas parte de suas regras de proteção e responsabilização seria alterada. A infância, afinal, também aparece nas propostas de segurança pública.
6. ELE DEFENDE O TRABALHADOR
Depois de criticar o fim da escala 6×1, Flávio votou a favor da redução da jornada. Ao mesmo tempo, defende uma alternativa com negociação direta entre patrão e empregado e pagamento proporcional às horas trabalhadas. Duas folgas sem redução salarial numa proposta; liberdade para trabalhar menos e receber menos na outra. A palavra liberdade comporta interpretações bastante diferentes.
7. ELE É CRISTÃO
Flávio participou de diferentes batismos, inclusive em 2024. A fé também ocupa espaço em sua comunicação política. Num país constitucionalmente laico, a relação entre convicção religiosa e exercício do poder merece atenção: governar uma população de diferentes crenças não é o mesmo que representar uma congregação.
8. ELE CUIDA DAS MULHERES
Segundo reportagem da revista piauí, repercutida pela imprensa, Flávio participou de um passeio de lancha com empresários e garotas de programa em julho de 2020, durante a pandemia. A publicação também relatou que um empresário teria lhe presenteado com um Rolex. Os organizadores estavam envolvidos em negociações para fornecer vacinas ao governo federal. O encontro reúne, numa única reportagem, política, negócios, luxo e uma crise sanitária.
9. ELE DEFENDE A EDUCAÇÃO
Seu programa prevê ampliar escolas cívico-militares, vincular recursos a indicadores de desempenho e oferecer vouchers educacionais. São escolhas que alterariam a organização e o financiamento da educação pública. A promessa de melhorar a aprendizagem vem acompanhada de uma concepção específica sobre gestão escolar e distribuição de recursos.
10. ELE RESPEITA A JUSTIÇA
O programa pretende limitar determinadas competências do STF. Reformar tribunais não é, por si, desrespeitar a Justiça. Mas reduzir o alcance de uma instituição responsável por controlar a constitucionalidade das decisões políticas levanta uma pergunta inevitável: quem fiscalizará os governantes depois das mudanças?
11. ELE PENSA NOS POBRES
O plano promete cortar pelo menos dez ministérios, reformar despesas públicas e retomar privatizações. A economia anunciada é expressiva; seus efeitos sobre o atendimento à população dependeriam de quais estruturas seriam reduzidas e de como os serviços seriam reorganizados. É possível contar ministérios antes de uma eleição. Medir as consequências dos cortes exige muito mais trabalho.
12. ELE GARANTE SEGURANÇA
Entre suas propostas estão flexibilizar o acesso a armas, eliminar a marcação obrigatória de munições, ampliar o encarceramento e restringir a progressão de penas. A marcação de munições auxilia investigações criminais, enquanto especialistas questionam os custos e a eficácia da expansão prisional. A segurança prometida tem medidas concretas — e consequências que também precisam ser examinadas.
13. ELE TEM UM PLANO PARA O BRASIL
Tem. E o documento reúne mudanças trabalhistas, econômicas, educacionais, penais e institucionais. Há propostas de contratação mais barata para empresas, alterações na atuação do Judiciário, expansão do sistema prisional e reorganização da administração pública. Não falta matéria para discussão. O desafio é compreender o que cada promessa significa quando deixa o papel e alcança a vida cotidiana.
A ironia termina onde começam os documentos.
As reportagens, votações e propostas estão disponíveis para consulta. Nenhum título substitui a leitura dos fatos.

