Por: Paulo Ricardo Zargolin
Tudo começou ao trocar mensagens no WhatsApp com uma amiga. Eu comentava, em tom quase despretensioso, que existe, sim, uma tendência à autossabotagem. Que fomos criados, pouco a pouco, pra sermos mártires — e que há nisso um elogio silencioso à dor. Disse que o povo acha bonito ver o sofrimento. É disso que a mídia vive. Guy Debord já avisava que vivemos em uma sociedade do espetáculo — e o espetáculo mais rentável ainda é o da queda.
Ninguém quer ver só o pobre que venceu na vida com esforço e estudo. Isso até comove. Mas o que mobiliza de verdade é quando ele cai. Quando perde tudo. Quando entra nas drogas. É como se o sucesso dele fosse uma ameaça temporária à ordem do mundo — e a tragédia, o retorno à normalidade.
Ela leu tudo com atenção. Não disse que eu estava errado, nem que eu estava certo. Disse apenas: “essa reflexão dá um bom texto, um artigo…”.
E sorriu, eu imagino.
Eu sorri também, mas continuei remoendo.
Mesmo sem perceber, a gente aplica essa lógica do espetáculo na própria vida. Em escalas menores, mais discretas. O conforto, quando aparece, assusta. Parece miragem. Fomos moldados, como diria Nietzsche em sua crítica à moral cristã, por um ideal de abnegação, onde o sacrifício é virtude e o prazer vem com culpa embutida. Aprendemos que o outro vem sempre antes. Que servir é nobre, e cuidar de si, egoísmo.
Assim, o sofrimento se tornou uma forma socialmente aceitável de existir. Ele gera empatia, identidade, até prestígio. Pierre Bourdieu talvez chamasse isso de capital simbólico da dor: uma moeda silenciosa que valida nossa presença no grupo.
E o riso? O riso, esse incomoda.
Ser feliz sem pedir desculpas é quase um ato de afronta. A alegria espontânea provoca. Byung-Chul Han, ao falar sobre a sociedade do cansaço, aponta que o excesso de positividade imposta não gera libertação, mas esgotamento. No entanto, na vida cotidiana, paradoxalmente, o que incomoda não é o cansaço, mas quem parece ter escapado dele.
Talvez por isso quem se mostra feliz demais vire alvo fácil.
Talvez por isso a gente comece a procurar, quase com método, aquilo que dói — só pra não se sentir deslocado. “Eu também tenho do que reclamar, tá vendo?”, diz o ricaço, no jatinho estacionado entre uma ilha paradisíaca e outra, impedido de pousar pelo mau tempo. A tragédia, mesmo em primeira classe, continua sendo um bom enredo.
No fim, seguimos a mesma lógica.
Não por maldade ou burrice. Mas porque fomos treinados assim. Como mostrou Freud, o inconsciente não negocia com a lógica, mas com os fantasmas da infância, da culpa, da perda. A alegria sem culpa parece soberba. A paz sem sacrifício parece fraude.
Então voltamos, discretamente, à fila invisível dos que precisam justificar a própria existência com uma boa cota de sofrimento. Porque só quem sangra tem direito à escuta. Só quem desce ao fundo é considerado legítimo. E o riso — esse gesto simples e libertador — é relegado à desconfiança.
Eu não escrevi um artigo. Escrevi essa crônica, rindo. Com gratidão à amiga que, com poucas palavras, me lembrou que pensar ainda pode ser uma forma gentil de subversão.

