Maracangalha
Capítulo 11
Por: Paulo Ricardo Zargolin
Agenor não avisou que viria. Nunca avisava. Era do tipo que acreditava que o mundo girava em torno de sua conveniência. Chegou perto das oito, sem pressa, com a barba por fazer e um hálito misturado entre cigarro velho e ambição requentada.
Belisário, ao abrir o portão, fez aquele sorriso discreto que se ensaia em espelho de repartição — um sorriso de servidor treinado para a diplomacia do estômago.
— A mesa já tá quase pronta — disse, enquanto o prefeito ajeitava o cinto sob a barriga cansada.
Entraram. A casa estava organizada, mas sem vaidade. A toalha com detalhes florais havia sido passada pela manhã. O cheiro era de frango com alecrim, arroz com alho e um perfume adocicado que escapava dos armários, herança da esposa ausente.
— Cadê a Sandra? — perguntou Agenor, sem tirar os sapatos.
— Em São Paulo. Congresso da empresa. Ela assumiu o cargo de diretora-executiva da marca — respondeu Belisário, ajeitando as cadeiras. — Cosméticos. Vai lançar uma linha nova de batons. Coragem, o nome da coleção.
— Bonito isso — disse Agenor, rindo com um canto da boca. — Coragem. Nome bom pra batom e ruim pra funcionário.
Tomaz desceu as escadas de meias, segurando o celular. Vinha com fones, mas o som vazava. Um trap acústico qualquer. Estacou ao ver o prefeito e hesitou por um segundo.
— Mas olha só… O filho cresceu, hein?
— Boa noite, senhor — disse Tomaz, sem cerimônia, só o suficiente para ser educado.
Agenor mediu o menino com o olhar de quem avalia um dado antigo. Como se tentasse lembrar qual foi a última vez em que vira aquele rosto. Talvez em alguma festa de gabinete, ou no fim de uma cerimônia escolar. Passou a mão na cabeça do garoto como quem sela um reconhecimento.
— Já tá com quantos?
— Onze — respondeu o menino, automático.
— Onze… E já tá maior que muito vereador por aí.
Tomaz riu sem mostrar os dentes. Foi breve. Despediu-se com um aceno leve e subiu, dizendo que ainda tinha lição pra terminar. Era mentira. Mas funcionava.
No quarto, encostado na porta, com o som do fone desligado, o garoto pôs-se a escutar. O pai havia esquecido de fechar por completo a porta da cozinha. A voz de Agenor atravessava a casa como fumaça. Espessa, cheia de ruídos.
— E então, essa moça nova… já deu trabalho?
— Ainda não. Tá aprendendo o caminho das gavetas — disse Belisário, enquanto servia o arroz no prato do prefeito.
— Ela veio de São Paulo. Passou no concurso. Nome publicado no Diário Oficial, tudo certo.
Agenor mastigou devagar, depois limpou a boca com o guardanapo como quem prepara o paladar pra um comentário mais ácido.
— Concurso… Essa palavra me dá urticária. Só serve pra legitimar encrenca. Dá autoridade pra quem não devia ter voz.
Tomaz, lá em cima, ouvindo tudo, puxou o celular e abriu o navegador. Digitou o nome que ouvira tantas vezes nos últimos minutos. “Ísis.” “Prefeitura.” “Maracangalha.” Não demorou muito. Uma nota oficial, o resultado do concurso, o nome completo. Bastou isso para que encontrasse o perfil certo. Uma conta discreta, sem selfies. Mas com frases de impacto, links de jornais, e uma postagem antiga sobre resistência feminina. Passou o dedo sobre o botão “seguir”. Depois, pensou melhor. Voltou. Criou uma conta nova, com nome genérico e foto de avatar retirada de um banco de imagens. Algo adolescente o suficiente pra parecer bobo. E invisível o bastante pra ser lido com descuido.
Na cozinha, a conversa continuava.
— Coloquei ela na Comunicação, mas dei a chave da sala ao Raul. Ele sabe o que fazer: deixa os computadores desligados. Eles funcionam melhor assim.
— E se ela cavar? — Belisário preocupou-se.
— Que cave. No máximo, encontra a própria sombra. As notas estão diluídas. Os nomes mascarados. E se insistir…
Agenor sorriu. Não completou.
Belisário pegou uma cerveja na geladeira. Colocou a garrafa entre eles.
— Ela é inteligente. Não parece do tipo que aceita qualquer papel.
— Inteligente… — repetiu o prefeito, girando o copo vazio. — Filha da poeira. Cresceu no rastro dos outros. Vai ter que se habituar com o nosso arquivo morto.
Tomaz, do quarto, sentiu um arrepio. A frase grudou como adesivo. Poeira. Morto. Arquivo. Palavras que, reunidas, ganhavam cheiro.
— Essa daí é problema da Cristina — continuou.
— Como assim?
O prefeito limpou os lábios com o guardanapo, mas parecia enxugar lembranças.
— É coisa antiga. Das que a gente não comenta nem com santo de confiança. Pois bem. Se tem uma coisa que Cristina sabe é plantar árvore com raiz encoberta.
— E se a menina não se habituar? — arriscou o assessor.
— Ela que se engasgue — retrucou Agenor.
Deu uma pausa. Depois soltou, como quem ri da própria astúcia:
— Mas vai mastigar em silêncio. Porque aqui, até o grito é protocolado.
Lá fora, a noite parecia mais densa. A lua não ousava subir. No celular de Tomaz, a conta fake já estava pronta. E o cursor piscava dentro da caixa de mensagem privada, como um nervo que pulsa.
Ele não sabia exatamente o que escrever. Mas sabia o que precisava dizer.
E sabia a quem.




