Pudim e Toddynho em: exterminadores do futuro

Por: Paulo Ricardo Zargolin

O futuro anda insuportável.

Ele chega sem ser convidado, instala-se na sala, abre gráficos, prevê catástrofes, fala de guerras, colapsos, inteligências artificiais, crises econômicas, climáticas, políticas e existenciais. Depois cruza as pernas e pergunta, com a arrogância de quem já sabe a resposta:

— E então? O que você pretende fazer a respeito?

Eu geralmente não sei.

Mas Pudim e Toddynho sabem.

Eles não discutem geopolítica. Não acompanham o mercado financeiro. Desconhecem completamente o risco de uma bolha tecnológica e, até onde pude verificar, nenhum dos dois possui opinião formada sobre o destino da humanidade.

Suas preocupações são mais concretas.

Pudim quer saber por que minha mão parou de fazer carinho.

Toddynho precisa verificar se o barulho vindo da cozinha representa alguma possibilidade alimentar.

Os dois trabalham em conjunto. Aproximam-se, ocupam meu colo, bloqueiam parcialmente minha respiração e iniciam uma operação silenciosa de extermínio do futuro.

Funciona.

Durante alguns minutos, as guerras deixam de existir. Os algoritmos param de decidir o destino das pessoas. O planeta interrompe educadamente o aquecimento. A humanidade, com todos os seus problemas gigantescos, é obrigada a aguardar do lado de fora.

Há um cachorro sobre meu peito.

Isso exige prioridade.

Talvez seja esse o verdadeiro poder dos animais: eles não nos oferecem grandes respostas. Eles nos devolvem às pequenas perguntas.

O potinho tem água?

Ainda há ração?

A porta está aberta?

Está calor demais?

Já fiz carinho suficiente?

Nunca fizemos carinho suficiente.

Pudim e Toddynho não me ensinam a salvar o mundo. Ensinam-me algo talvez mais difícil: permanecer nele.

Porque o futuro, quando observado de longe, é uma máquina enorme produzindo medo. Mas o presente possui tarefas simples. Levantar. Caminhar até a cozinha. Lavar o potinho. Colocar água fresca. Completar a ração.

É pouco.

E, naquele instante, é tudo.

Há uma estranha dignidade nas ações imediatas. Enquanto não posso resolver os conflitos globais, posso garantir que dois cachorros estejam alimentados, protegidos e amados. Posso criar, ao redor deles, uma pequena área habitável do planeta.

Talvez seja assim que começamos a enfrentar o fim do mundo: mantendo alguma coisa viva.

Pudim bebe água como se eu tivesse acabado de restaurar um rio inteiro. Toddynho observa a ração cair no pote com a solenidade de quem presencia um milagre. Nenhum deles considera minha ação insuficiente.

Para eles, fiz o que precisava ser feito.

E isso produz uma alegria muito particular: a de descobrir que ainda sou capaz de melhorar o universo de alguém.

Depois, voltamos para a cama.

Eles se acomodam em mim como se meu corpo fosse território conquistado. O futuro tenta entrar novamente, mas encontra a passagem bloqueada por patas, pelos e absoluta falta de respeito pelo espaço pessoal.

Não consegue passar.

Pudim e Toddynho venceram outra vez.

Os problemas globais continuam existindo, naturalmente. Amanhã estarão nos jornais, nas telas e nas conversas. Mas, por alguns minutos, foram derrotados por dois cãezinhos que não sabem o que significa esperança.

Eles apenas a praticam.

Comem. Bebem água. Cochilam encostados em mim.

E me fazem acreditar que talvez seja possível sonhar não com um futuro distante, grandioso e perfeito, mas com o presente seguinte.

O próximo carinho.

O próximo potinho cheio.

A próxima pequena ação capaz de tornar o mundo menos assustador.

Pudim e Toddynho não vieram para salvar a humanidade. Vieram salvar a noite. E, sinceramente, já é um excelente começo.

Continue acompanhando as pequenas cenas, os afetos e as desordens domésticas na estante Pudim & Toddynho ou percorra outras histórias em Crônicas Zargolinianas.

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