O jogador que ficou

Magenta! apresenta: #OJogo

Terceira parte — A partida começa

Capítulo 11

— Bom — disse Davi. — Acho que descobrimos onde.

Ninguém riu.

Os passos continuaram pelo corredor.

Lentos.

Sem pressa.

Paulinho ainda segurava o braço de Davi.

— Espera.

— Estou esperando.

— Não parece.

— Estou esperando com vontade de não esperar.

Lia fechou o caderno.

O som seco da capa pareceu alto demais.

Caio olhou para a porta aberta.

— A gente pode simplesmente ficar aqui.

Davi virou para ele.

— Excelente. Encontramos um arquivo cheio de partidas que deram errado e sua ideia é se esconder dentro dele.

— Minha ideia é não seguir o possível sobrevivente de uma delas.

— “Um jogador permaneceu” não quer dizer sobrevivente — disse Lia.

— Obrigado — respondeu Caio. — Melhorou muito.

Os passos pararam.

Silêncio.

Os quatro olharam para a porta.

Então ouviram uma cadeira arrastar.

Vinha da sala da mesa.

Paulinho soltou Davi.

— Voltou pra lá.

Davi perdeu o sorriso.

Dessa vez, ninguém precisou decidir.

Saíram do Arquivo.


O corredor parecia exatamente como antes.

Os mesmos quadros.

A mesma luz.

O mesmo tapete.

Mas havia alguma coisa diferente quando se atravessava um lugar sabendo que talvez outra pessoa estivesse nele.

Caio caminhava atrás de Paulinho.

Lia vinha logo depois.

Davi, por algum motivo, escolhera ficar por último.

— Engraçado — disse Caio.

— O quê? — perguntou Lia.

— O Davi ficou corajoso lá atrás.

— Estratégia — respondeu ele.

— Medo.

— Estratégia de sobrevivência.

Chegaram à sala.

Vazia.

O rádio continuava onde estava.

Os livros também.

Paulinho olhou para a janela.

A cortina permanecia fechada.

Seguiram.


Na cozinha, os quatro pararam.

O bolo estava sobre a mesa.

Caio olhou para Davi.

Davi olhou para Caio.

Lia percebeu.

— Não.

— Eu não falei nada — disse Caio.

— Nem eu — acrescentou Davi.

— Os dois pensaram.

Paulinho aproximou-se da mesa.

Antes, havia quatro pratos.

Agora havia cinco.

Ele contou novamente.

Um.

Dois.

Três.

Quatro.

Cinco.

— Tinha cinco antes? — perguntou.

Lia respondeu imediatamente:

— Não.

Davi se aproximou.

O quinto prato era idêntico aos demais.

Ao lado dele, um copo.

E um garfo.

Caio apontou para o bolo.

— Eu gostaria de registrar que agora existe uma razão socialmente aceitável para cortar.

Lia olhou para ele.

— Tem alguém andando pela casa e você está pensando no bolo?

— Estou tentando manter prioridades.

Davi puxou uma cadeira.

— O prato está limpo.

— Todos estão — disse Paulinho.

Davi passou o dedo pela borda.

— Então não sabemos se alguém comeu.

Lia olhou para a mesa.

— Talvez não seja para alguém que está aqui.

Caio franziu a testa.

— Como assim?

— Talvez seja para alguém que vai estar.

Ninguém gostou da hipótese.


Continuaram.

A porta da sala do jogo estava aberta.

Paulinho parou antes de entrar.

A mesa permanecia no centro.

As quatro cadeiras com seus nomes continuavam afastadas.

As outras, alinhadas.

Vazias.

Nenhuma quinta cadeira havia sido puxada.

Caio respirou aliviado.

— Ótimo.

— O quê? — perguntou Davi.

— Eu estava esperando alguém sentado ali.

Davi olhou para as cadeiras.

— Agora eu também.

— Obrigado.

Entraram.

Não havia ninguém.

Paulinho caminhou até sua cadeira.

A folha ainda estava lá.

As anotações.

O lápis.

O suporte.

Tudo como haviam deixado.

Lia verificou o próprio lugar.

Caio também.

Davi puxou sua folha.

— Nada mudou.

Paulinho olhou para a mesa.

— Alguma coisa mudou.

No centro havia um objeto.

Pequeno.

Retangular.

Preto.

Lia foi a primeira a reconhecer.

— É uma carta.

Nenhum deles tocou.

A carta estava virada para baixo.

Caio olhou para as cadeiras vazias.

— Isso estava aqui?

— Não — respondeu Paulinho.

Davi estendeu a mão.

Lia segurou seu pulso.

— Você tem algum problema com mãos?

— Tenho duas.

— Não toca.

— Alguém precisa virar.

— Por quê?

Davi apontou para a carta.

— Porque ela apareceu no meio da mesa depois que ouvimos uma pessoa que não deveria existir andando pela casa.

Caio concordou.

— Dessa vez eu estou com ele.

Lia soltou o pulso.

— Isso me preocupa mais do que a carta.

Davi virou.

Não havia cor.

Não havia símbolo.

Apenas uma frase.

NÃO CONFUNDA PERMANECER COM FICAR.

Caio leu duas vezes.

— Isso ajuda alguém?

— Ainda não — disse Paulinho.

Lia pegou a carta.

Virou.

Nada no verso.

— Permanecer com ficar — repetiu.

Davi apoiou as mãos na mesa.

— Eu gostaria de solicitar respostas menos poéticas.

A mesa não respondeu.


Paulinho voltou ao Arquivo.

Os outros seguiram.

Dessa vez, ninguém fez piada no corredor.

Lia abriu novamente o caderno.

Encontrou a página.

Mesa 63.
Quatro entradas.
Partida concluída.
Um jogador permaneceu.

Paulinho colocou a carta ao lado.

NÃO CONFUNDA PERMANECER COM FICAR.

Caio foi o primeiro a perceber.

— Ele não ficou aqui.

Lia levantou os olhos.

— Não necessariamente.

— Então o que significa permaneceu?

Davi pegou outro caderno.

Folheou algumas páginas.

Depois outro.

E outro.

— Talvez a gente esteja procurando uma pessoa.

Paulinho entendeu.

— E não seja uma pessoa.

Davi continuou procurando.

— Uma partida pode terminar e alguma coisa dela permanecer.

Lia olhou para as caixas.

As versões antigas.

As queimadas.

As molhadas.

As incompletas.

Paulinho olhou novamente para o registro da Mesa 63.

Então viu.

No canto inferior da página havia uma marca.

Muito pequena.

Quase escondida pela dobra.

Um círculo.

Dentro dele, uma única letra.

M.

Paulinho puxou outro caderno.

Procurou.

Mesa 31.

Nada.

Mesa 44.

Nada.

Mesa 52.

Nada.

Lia pegou outro.

Folheou rapidamente.

Parou.

— Aqui.

Mesa 71.

No canto inferior:

M.

Davi encontrou outra.

Mesa 86.

M.

Caio se aproximou.

— O que é isso?

Ninguém respondeu.

Paulinho voltou à Mesa 63.

Quatro entradas.

Partida concluída.

Um jogador permaneceu.

E aquela letra.

M.

Magenta.

Talvez não fosse o nome de uma cor.

Talvez fosse outra coisa.


O som veio da sala.

Um toque curto.

Quase alegre.

Dessa vez, reconheceram imediatamente.

A mesa.

Voltaram pelo corredor.

Quando entraram, as quatro cadeiras estavam novamente junto ao tampo.

Os nomes acesos.

PAULINHO.

CAIO.

LIA.

DAVI.

Caio parou.

— Ela quer a gente sentado.

Davi olhou para o corredor.

Depois para a mesa.

— Pelo menos pararam os passos.

Paulinho aproximou-se.

Sua folha havia mudado.

As perguntas anteriores tinham desaparecido.

As anotações também.

No centro da página havia apenas uma frase.

Olhou para as folhas dos outros.

A mesma coisa.

Lia leu em voz alta:

QUATRO JOGADORES SÃO SUFICIENTES.

Davi puxou a cadeira.

— Finalmente uma informação objetiva.

Paulinho continuou olhando.

Uma segunda linha começou a surgir.

Devagar.

Letra por letra.

A PARTIDA NÃO PRECISA DE MAIS NINGUÉM.

Caio olhou para o corredor vazio.

— Então quem estava andando pela casa?

A mesa permaneceu em silêncio.

Lia sentou.

Davi também.

Paulinho puxou sua cadeira.

Caio foi o último.

Assim que os quatro ocuparam seus lugares, as luzes do corredor se apagaram.

Uma depois da outra.

Até restar apenas a sala.

No centro da mesa, quatro cartas apareceram.

Viradas para baixo.

Paulinho sentiu o coração acelerar.

Davi olhou para ele.

Caio para Lia.

Lia para as cartas.

Então uma última frase surgiu nas quatro folhas:

VOCÊS JÁ SABEM O SUFICIENTE.

Paulinho olhou para a própria carta.

Pela primeira vez, teve a impressão de que o jogo não estava tentando ensinar mais nada.

Estava esperando uma decisão.

(continua)

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