Meu irmão ganhou uma fita de aniversário. A família ganhou uma nova programação.
Lucas nasceu em 29 de outubro de 2000 e, ainda muito pequeno, compreendeu uma coisa importante sobre a vida em sociedade da época: quem controlava o videocassete tinha boas possibilidades de governar a casa. Não precisava alcançar todos os botões. Havia pessoas maiores que podiam executar suas determinações.
A experiência anterior com os Teletubbies já havia demonstrado a eficiência do sistema. Ele assistia o tempo todo. Quando a fita precisava ser rebobinada, chorava. A tecnologia tinha seus limites, mas Lucas não parecia disposto a reconhecer a legitimidade de nenhum deles.
Para quem não viveu essa fase, convém explicar que uma fita precisava voltar fisicamente ao começo antes de ser assistida outra vez. Havia um intervalo entre querer e conseguir. Meu irmão considerava esse intervalo um defeito grave na prestação do serviço.
O aparelho rebobinava. Lucas reclamava. Alguém esperava ao lado. Era todo um setor da casa trabalhando para que os Teletubbies pudessem recomeçar suas atividades.
Foi nesse contexto que chegou Xuxa Só Para Baixinhos 2.
Confesso que senti certo alívio. Eu já tinha maior proximidade com Xuxa e suas músicas. Aquela mudança na programação representava uma oportunidade de negociação com o novo governo. O videocassete continuaria ocupado, evidentemente, mas agora eu tinha algum interesse no que seria exibido.
Havia apenas uma questão pessoal a administrar: eu era um pré-adolescente e precisava manter a fama de mau.
A tarefa exigia cuidado. Uma pessoa não pode construir toda uma reputação para depois ser encontrada gostando de uma fita destinada aos baixinhos. Felizmente, meu irmão estava ali. Eu assistia com ele. Essa informação precisava permanecer muito clara, sobretudo para mim.
Era acompanhamento fraterno. Se, por acaso, eu soubesse o que vinha depois, isso se devia às circunstâncias.
Nem tudo, porém, merecia minha aprovação. Eu achava muito toscas aquelas animações com contagens regressivas entre uma canção e outra. Havia limites para a colaboração. Podia aceitar a programação, gostar das músicas e permanecer diante da televisão, mas conservava meu direito à crítica.
Afinal, alguém naquela sala precisava demonstrar maturidade. E, pelo visto, esse alguém seria eu, esperando acabar a contagem para ver a próxima música infantil.
“O Ônibus” era uma das que eu gostava muito de acompanhar. “Vem Que Eu Vou Te Ensinar” também. Aos poucos, a justificativa de estar ali por causa de Lucas ia ficando insuficiente. Havia partes que me interessavam, outras pelas quais eu esperava, outras que já faziam parte da rotina.
Meu irmão tinha tomado o videocassete. Eu estava começando a encontrar vantagens na ocupação.
“Enquanto Seu Lobo Não Vem” ajudava bastante. A brincadeira tinha aquela capacidade de sustentar uma espera cujo resultado já conhecíamos. E daí? Saber o que aconteceria não impedia ninguém de querer chegar novamente àquela parte. A fita podia voltar ao começo quantas vezes fosse necessário. O lobo continuava tendo seus compromissos.
“Laranjas e Bananas”, por sua vez, me conquistava pela brincadeira com as vogais. Eu amava aquilo. As palavras mudavam de som, ficavam esquisitas, exigiam que a boca encontrasse outro jeito de fazer o que estava acostumada a fazer. Havia uma graça particular em acompanhar essas transformações.
Hoje, depois de tanta coisa escrita, acho perfeitamente compreensível que eu gostasse de ver alguém mexendo nas palavras. Na época, eu só achava muito divertido. Não precisei elaborar uma justificativa relacionada à minha formação em Letras para permanecer diante da televisão.
Até porque ainda não tinha a formação. Tinha a fama de mau, que já dava bastante trabalho.
E havia o pot-pourri de “O Sapo Não Lava o Pé”. Era de doer. Muito bom, mas de doer. Algumas experiências conseguem reunir qualidades que, explicadas separadamente, parecem incompatíveis. Eu gostava e, ao mesmo tempo, tinha plena consciência do que estava fazendo com os meus ouvidos.
Continuava assistindo.
“A Bonequinha” também estava entre as minhas preferidas. Essa acabou indo mais longe do que eu poderia imaginar: hoje, faz parte das inspirações da minha série Ana Paula. Uma coisa que entrou em casa numa fita de aniversário do meu irmão encontrou um jeito de permanecer e, muitos anos depois, participar de uma história minha.
Lucas provavelmente não imaginava que estava contribuindo para o acervo do Logosgrafia. Naquele momento, sua preocupação era garantir acesso contínuo ao videocassete.
Mas nenhuma lembrança dessa fita estaria completa sem os famigerados cinco patinhos, resgatados de XSPB 1, como soubemos depois.
Inesquecíveis. Até porque havia muitas oportunidades de reforçar a lembrança.
Os patinhos saíam, a quantidade diminuía, a mãe chamava, e nós acompanhávamos novamente aquela situação familiar que já conhecíamos muito bem. A essa altura, eu estava envolvido demais para alegar indiferença. Sabia das vogais, do sapo, da bonequinha e dos problemas de organização dos passeios daquela família de aves.
Minha reputação teria de sobreviver a isso.
O mais engraçado é perceber que a chegada de Xuxa me permitiu participar de uma rotina da qual eu talvez preferisse reclamar. Com os Teletubbies, a repetição parecia não ter fim. Com XSPB 2, ela continuava sem ter fim, mas eu encontrava motivos para ficar.
Lucas era pequeno, eu era mais velho, e os dois tínhamos nossos interesses diante da mesma televisão. Ele não precisava se explicar. Eu mantinha algumas ressalvas estéticas, fazia minhas avaliações e aguardava as partes de que gostava.
Era um acordo razoável.
Também gosto de pensar que a infância de um irmão mais novo acaba se espalhando pela vida da gente dessa maneira. Algumas músicas passam a integrar a nossa memória porque alguém as queria ouvir outra vez. Um programa ganha importância porque ocupou a televisão da casa. Uma fita fica associada a um período inteiro, embora ninguém tenha pensado em guardar aquele cotidiano enquanto ele acontecia.
Não havia solenidade. Havia um menino querendo assistir, uma fita para rebobinar e um irmão mais velho que já não estava fazendo tanto esforço para sair da sala.
Quando volto a XSPB 2, lembro das músicas e de Lucas. Lembro do alívio de reencontrar Xuxa no meio daquela ocupação doméstica. Lembro de achar as animações toscas e de gostar muito do que vinha depois delas. As duas coisas conviviam perfeitamente. Meu senso crítico jamais conseguiu desocupar o sofá.
A fita tinha sido presente de aniversário dele. Mas, pelo uso, acho que acabei ganhando alguma coisa também.
Lucas tomou o videocassete, e eu aprendi a reinar com o novo chefinho.
Com fama de mau e tudo.

