Maracangalha
Capítulo 21
Por: Paulo Ricardo Zargolin
São Paulo era um espelho sujo visto do alto. O vidro do prédio refletia um céu estagnado, como se a cidade estivesse prestes a chover, mas não tivesse coragem.
Agenor saiu da sala de reunião com o passo leve de quem acredita no próprio teatro. O terno estava suado nas axilas, mas ele mantinha o queixo erguido. Os deputados tinham sido maleáveis. Uma promessa aqui, uma piada acolá, um mapa da orla redesenhado com lápis grosso sobre uma cópia do Google Earth.
— Se tudo correr como deve… — murmurava, ajeitando o nó da gravata — a população vai engolir estrada com gosto. E depois, o nome certo nas urnas.
Estava quase sorrindo. Quase.
O elevador apitou. Ele entrou. Espelho. Botões. Silêncio. Mas antes que a porta se fechasse por completo, uma mão surgiu — um gesto teatral demais para ser acidental.
— Seu Agenor — disse o assessor, entre a cortesia e a urgência. — Não se vá ainda. O Dr. Paiva precisa trocar uma palavrinha com o senhor.
Agenor congelou por um segundo. Não o bastante para ser notado. Mas o bastante para sentir o estômago se contrair.
— Paiva… — repetiu em pensamento.
Problema antigo. Desses que a gente nunca resolve — só adia, disfarça, empurra.
Voltou o corpo para o corredor. Respirou fundo, mas discretamente. O sorriso que ofereceu ao assessor era o de sempre. Mas a mão que ajeitou a lapela do paletó tremia, imperceptível — exceto para quem já aprendeu a ver as rachaduras no verniz do poder.
Agenor entrou na sala, onde o ar-condicionado parecia lutar contra o calor de São Paulo. Dr. Paiva estava de pé, junto à janela, observando o movimento lá fora. Sem virar-se, disse com um sorriso que não alcançava os olhos:
— Uma palavrinha só, Agenor.
O assessor fechou a porta atrás de si, deixando-os a sós. Paiva virou-se lentamente, encarando Agenor com um olhar que misturava ironia e autoridade.
— Já conseguiu a verba, raposinha velha?
Agenor tentou manter a compostura, mas a voz saiu hesitante:
— Ainda não é cer…
Paiva interrompeu, cortante:
— Claro que já! E sabe que precisamos de uma parte, certo?
Agenor engoliu seco. Em Maracangalha, era o leão; ali, um cordeiro diante do verdadeiro poder.
— Preciso cumprir minha promessa, Paiva. Já não dá mais pra adiar…
Paiva riu, sem humor:
— Não me venha com esse melodrama, bancando o honesto homem do povo, comigo! Sabemos muito bem o que você e os seus têm feito ao longo dos anos naquele buraco banhado de uma gota do mar!
— Por favor…
— Ora! Faça-me o favor! Negociatas há gerações! Ainda preciso calar certas bocas…
Agenor baixou o olhar, murmurando:
— Pior ainda, meu amigo. Alguns já estão suspeitando. Aquela gente pervertida está instalada em mansão, enquanto projetos importantes ficam parados…
Paiva aproximou-se, diminuindo a voz:
— Dentre os pervertidos, uma sabe de tudo e eu preciso do seu apoio, senão vamos ter que pensar em outro para assumir o poder naquele fim de mundo. Aliás, do jeito que a coisa vai, a pervertida-mor daria uma boa candidata, não acha? Já pensou? O grande homem de família, honrado, defensor da moral e dos bons costumes, perdendo eleição pra um… uma… um nem sei o que é aquilo… só sei que ela sabe demais e precisamos pagar pra que a memória desapareça.
O prefeito apenas assentiu. Era o que restava. A única coisa sensata a se fazer.

