Na minha infância, algumas festas pareciam se organizar sozinhas.
Aconteciam na escola, no centro comunitário, em eventos promovidos pelas então chamadas ONGs ou em ocasiões cuja origem administrativa eu desconhecia completamente. Havia alguma coisa para crianças acontecendo, e isso costumava ser informação suficiente. Não me ocorria perguntar quem tinha organizado, de onde vinha o dinheiro ou quem ficaria depois para guardar as coisas.
Eu estava ocupado sendo o público-alvo.
“Circo”, na voz de Xuxa, está muito presente nessas lembranças dos anos 90. Recordo especialmente das gincanas escolares embaladas pela canção, mas a atmosfera que ela me devolve ultrapassa a escola. É a sensação de chegar a um lugar onde alguma coisa havia sido preparada para nós. Um acontecimento interrompia a programação habitual do dia e oferecia outras possibilidades.
A música parecia conhecer todas elas.
Não consigo reconstituir cada evento, colocar as datas em ordem ou identificar os responsáveis. A trilha sonora, porém, conservou seu lugar. Imagino que muita gente tenha trabalhado para que aquelas coisas acontecessem. Peço desculpas pelo arquivo incompleto. A Xuxa ficou com uma parte considerável dele.
Quando volto a “Circo”, penso nesse espírito circense que atravessava as imagens da infância. O colorido, o movimento, a apresentação de alguma coisa que merecia nossa atenção. Havia uma disposição para o espetáculo. Mesmo numa atividade simples, cabia a expectativa de que algo divertido estava para acontecer.
Hoje, eu poderia chamar isso de zeitgeist: um espírito de época, uma atmosfera cultural reconhecível em diferentes manifestações. Naquele tempo, eu não conhecia a palavra e conseguia participar das atividades mesmo assim.
Algumas coisas podem ser vividas antes de receberem um nome alemão.
O circo oferecia um repertório para imaginar a festa. Cabiam nele a habilidade extraordinária, a trapalhada, a surpresa e o exagero. Alguém fazia uma coisa difícil. Outro encontrava uma maneira muito complicada de fazer algo aparentemente simples. O público acompanhava, esperava, ria. Havia lugar para o sujeito que parecia dominar o próprio corpo e para aquele que, ao menos em cena, tinha sérios problemas de entendimento com as pernas.
Era uma variedade bastante generosa de possibilidades humanas.
Esse universo podia aparecer numa música e se espalhar por um evento inteiro. Uma gincana ganhava ares de apresentação. Uma atividade convocava uma torcida. Por alguns minutos, o que alguém fazia merecia a atenção dos demais. O espaço cotidiano recebia outra função, e nós entrávamos naquela combinação sem precisar discutir seus fundamentos.
Lembro das gincanas, mas gosto de ampliar o olhar para os outros lugares onde a infância também acontecia. O centro comunitário, os eventos organizados por pessoas que talvez eu nem soubesse nomear, as iniciativas que chegavam até mim já transformadas em convite. Havia adultos fora da minha casa e da minha sala de aula dedicando algum tempo a preparar coisas das quais eu participava.
Na lembrança da criança, tudo isso podia parecer uma propriedade do lugar. O evento estava lá porque aquele era um lugar onde eventos aconteciam. Simples.
A vida adulta estraga um pouco essa teoria ao nos apresentar a quantidade de trabalho necessária para organizar qualquer coisa com mais de três pessoas.
É preciso combinar, conseguir espaço, separar materiais, avisar, resolver o que faltou e lidar com aquilo que resolveu dar errado justamente na hora. Não sei quais dessas tarefas cercaram cada evento da minha infância. Hoje, porém, consigo imaginar que a festa não tenha brotado espontaneamente no centro comunitário.
Alguém precisou chegar antes de nós.
Essa constatação não diminui o encanto da lembrança. Acrescenta pessoas a ela. Por trás do acontecimento que parecia pronto, havia decisões e esforços dos quais eu usufruía sem conhecer os detalhes. Algumas dessas pessoas talvez nem imaginassem que uma criança guardaria qualquer coisa dali por tanto tempo.
E eu guardei uma música.
Pode parecer pouco, considerando o trabalho que provavelmente tiveram. Mas uma música consegue trazer bastante coisa de volta. Um lugar, uma impressão de movimento, a expectativa de participar. Nem sempre a memória preserva os acontecimentos com a precisão que gostaríamos. Às vezes, conserva o jeito como parecia estar dentro deles.
“Circo” participa desse arquivo.
“Piruetas” chega à nossa viagem por outro momento. A releitura de Xuxa, com Renato Aragão, retoma a canção de Os Saltimbancos Trapalhões e prolonga aquele imaginário. A gravação pertence a uma fase posterior às gincanas dos anos 90 de que me lembro, mas encontra um cenário que, para mim, já estava montado.
Gosto de aproximar as duas músicas por isso. Uma me leva diretamente aos eventos da infância. A outra conversa com a mesma disposição para o espetáculo, para a graça do movimento e para um exagero que encontra pleno sentido dentro da brincadeira.
O calendário separa os lançamentos. A lembrança consegue organizar uma apresentação conjunta.
Há alguma coisa particularmente divertida na ideia de pirueta. O movimento poderia terminar, mas ganha outra volta. A apresentação cresce, a dificuldade aumenta, o gesto pede atenção. Quem acompanha quer saber até onde aquilo vai. A expectativa participa do número tanto quanto o movimento.
E o circo sabe trabalhar com essa espera. Prepara o público para admirar, surpreende, muda o ritmo. A aparente facilidade de quem se apresenta pode até esconder o trabalho necessário para chegar ali. Nós vemos o número pronto, assim como a criança encontra a festa pronta.
Só depois lembramos de perguntar pelo ensaio.
Talvez seja essa uma das coisas que mais me interessam quando revisito essas canções: perceber quantas pessoas trabalharam para produzir experiências que recebi como diversão. Quem compôs, quem cantou, quem preparou uma apresentação, quem escolheu a música para uma atividade, quem decidiu que haveria um evento para crianças naquele lugar.
Eu não acompanhava essa movimentação. Chegava à parte em que já podia participar.
Xuxa atravessava esses espaços pela voz. Saía da televisão e dos discos para acompanhar acontecimentos locais, com pessoas e circunstâncias próprias. Uma canção conhecida ajudava a reunir crianças que talvez tivessem poucas outras coisas em comum. Cada evento encontrava um uso para ela e acrescentava alguma coisa à sua passagem.
É por isso que, quando escuto “Circo”, a lembrança não fica restrita à cantora. Há uma infância acontecendo ao redor.
O centro comunitário também entra. A escola aparece. Surgem aqueles eventos que, do meu ponto de vista, se organizavam sozinhos. Não consigo devolver a cada pessoa o crédito que lhe pertence, mas já sei que havia gente onde antes eu enxergava apenas uma festa.
“Piruetas” encontra essa memória ainda disposta a acompanhar o espetáculo. Gosto do espírito circense que as duas carregam, dessa possibilidade de preparar um espaço para que alguém se espante, participe e ache graça. Durante algum tempo, estar ali era o que tínhamos para fazer.
E era bastante coisa.
Não lembro quem ganhou as gincanas. Também não sei o nome de todos que fizeram aquelas festas acontecerem.
Mas, se algum deles estiver lendo, fica o registro: eu estava lá.
E a música ainda toca.

