A cidade dos sonhos

Uma cidade perfeitamente conectada cresce em níveis, passarelas, trilhos e escorregadores. No centro, uma torre giratória organiza todos os caminhos — até que o excesso faça o sonho estremecer. Crônicas Zargolinianas.

A ciclovia atravessava a cidade por quilômetros.

Era larga, bem cuidada, cercada por árvores em alguns trechos e por prédios altos em outros. Bicicletas seguiam pelo centro. Nas laterais, as pessoas caminhavam sem pressa, paravam para conversar, ocupavam bancos, observavam o movimento.

A estranheza começava aos poucos.

Em determinado ponto, uma escada levava a um nível mais baixo da via. Para descer, podia-se usar os degraus ou um escorregador.

Mais adiante havia outro.

Depois um tobogã enorme.

Alguns eram abertos, outros desapareciam dentro da estrutura e reapareciam vários metros abaixo. Crianças usavam todos. Adultos também, com a tranquilidade de quem mora numa cidade em que ninguém precisa justificar por que preferiu chegar ao andar de baixo escorregando.

Eu continuava andando.

Quanto mais avançava, mais a cidade se multiplicava em níveis. Passarelas cruzavam avenidas. Linhas de trem desapareciam entre prédios. Ciclovias passavam por cima de ruas, entravam em estruturas cobertas e ressurgiam em outro lugar. Havia rampas, corredores, estações, pontes.

Tudo parecia conectado.

Nem tudo parecia compreensível.

Foi então que vi a torre.

Primeiro, uma parte dela entre os edifícios.

Depois outra.

Só quando me aproximei percebi o tamanho.

A estrutura ocupava praticamente todo o centro da cidade. Era circular, imensa, atravessada por ruas, trilhos, corredores e passarelas distribuídos por dezenas de andares.

Não era prédio.

Não era estação.

Não era viaduto.

Era uma espécie de rodoanel vertical construído por alguém que, em algum momento, deve ter olhado para a palavra “mobilidade” e entendido aquilo como provocação pessoal.

A torre girava.

Devagar o suficiente para que a cidade funcionasse.

Rápido o bastante para que ninguém atravessasse o centro sem negociar com ela.

Os carros entravam por uma pista e eram capturados pelo movimento. Um veículo que pretendesse seguir em frente podia dar meia-volta junto com a estrutura e surgir, segundos depois, numa saída completamente diferente.

Aquilo não era defeito.

Era o sistema.

Os motoristas pareciam conhecer o mecanismo. Entravam, deixavam-se arrastar pelo giro e aguardavam o momento de alcançar a rota desejada.

Os ônibus faziam o mesmo.

Os trens também.

Nas laterais, os pedestres circulavam por passarelas próprias. Entre um nível e outro havia pequenos vãos, quase cubículos, onde as pessoas se reuniam. Alguns tinham bancos. Outros eram apenas recuos na estrutura.

De lá, observávamos o espetáculo.

Um ônibus desaparecia atrás de uma coluna e reaparecia do outro lado. Um trem atravessava dois níveis abaixo. Carros entravam e saíam do círculo como se a força centrífuga fosse apenas mais uma modalidade de transporte público.

Era difícil não olhar.

E durante algum tempo tudo funcionou.

Até que começaram a entrar veículos demais.

As pistas engrossaram de carros. Os ônibus já não encontravam os mesmos espaços. Os trens passavam próximos demais uns dos outros. As passarelas encheram. Nos cubículos, as pessoas deixaram de conversar e começaram a olhar para baixo.

A torre deu um solavanco.

Depois outro.

Um carro perdeu a saída e continuou preso ao círculo.

Um ônibus apareceu numa pista ainda ocupada.

Veio um ruído metálico de algum lugar acima.

Ninguém correu.

Ainda existia aquela confiança muito humana de que uma coisa gigantesca continuará funcionando pelo simples motivo de ter funcionado até cinco minutos atrás.

Mais carros entraram.

Outro trem.

A torre girou.

Rápido demais.

Ouvi um estalo.

O sol entrava indiscretamente pela janela, iluminando o quarto com uma intimidade que eu não havia autorizado.

Procurei o celular.

Não encontrei.

Passei a mão pela cama, olhei no chão, levantei o travesseiro, procurei entre os lençóis.

Nada.

Sem relógio por perto e sem a menor ideia de que horas eram, recorri ao único objeto da casa que parecia disposto a colaborar.

— Alexa, que horas são?

— Bom dia, Paulo. São oito e quinze.

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