Há quem veja o erro alheio e reduza a velocidade. Há quem o transforme numa competição particular, convencido de que inteligência é saber escapar da consequência depois de repetir o mesmo caminho. Crônicas Zargolinianas.
Hoje ouvi alguém comentar sobre o erro cometido por outra pessoa:
— Ah, isso aconteceu com ela. Mas, se acontecer comigo, não vai dar em nada. Eu sei me defender.
Fiquei pensando na estranha ideia de inteligência escondida nessa frase.
Porque, diante do erro alheio, há pelo menos duas possibilidades. A primeira é observar o que aconteceu e evitar o mesmo caminho. A segunda é repetir os passos, convencido de que, no seu caso, a consequência será diferente.
A primeira exige discernimento.
A segunda exige fé em si mesmo.
Nem sempre são a mesma coisa.
Imagine uma estrada. Antes de uma curva, há uma placa:
PERIGO. REDUZA A VELOCIDADE.
Mais adiante, um carro destruído no acostamento confirma que talvez a placa não esteja ali por capricho.
A maioria das pessoas pisaria no freio.
Outras olhariam para o carro e pensariam:
— Também, desse jeito ele dirigia mal.
E manteriam o pé no acelerador.
Há uma arrogância muito particular em acreditar que o erro só se tornou erro porque foi cometido por alguém menos habilidoso que nós.
O outro foi pego porque não soube esconder.
O outro perdeu porque não soube argumentar.
O outro se complicou porque não soube se defender.
Eu saberia.
Talvez soubesse.
Mas essa não é a pergunta mais inteligente.
A pergunta mais inteligente é: por que eu precisaria descobrir?
Uma das vantagens de viver entre outras pessoas é justamente esta: nem toda lição precisa chegar acompanhada de uma conta em nosso nome.
Podemos observar.
Podemos reconhecer o precipício antes de cair.
Podemos aprender com o prejuízo que não foi nosso, com a vergonha que não passamos, com a consequência que não precisou nos atingir.
É uma espécie de conhecimento gratuito — embora alguém, em algum lugar, já tenha pago caro por ele.
Por isso me parece pouco inteligente olhar para uma situação evitável e pensar primeiro na própria capacidade de defesa.
Defender-se é uma habilidade.
Evitar aquilo que exigirá defesa pode ser sabedoria.
Há quem confunda prudência com medo porque precisa transformar toda advertência em desafio. A placa diz “reduza” e a pessoa escuta “duvido que você consiga”.
Então acelera.
Talvez passe pela curva.
Talvez não.
Mas nunca terá provado que a placa estava errada.
Terá provado apenas que, desta vez, teve sorte.
Porque uma placa de perigo não está na estrada para descobrir quem dirige melhor.
Está ali para impedir que o próximo carro precise servir de placa.

