Chegamos à parte em que alguém precisa avisar que acabou.
Como fui eu que inventei esta viagem, aparentemente a responsabilidade é minha. Havia pensado nas músicas, nas lembranças, nos lugares por onde passaríamos. A hora de descer ficou para depois. É um método bastante conhecido por quem já prolongou uma visita enquanto o anfitrião começava a apagar as luzes.
Só mais uma música.
“Arco-íris” ficou esperando por nós no fim deste percurso. Gosto de chegar a ela depois de tanta conversa. Há uma generosidade naquela ideia de colorir, de imaginar um mundo em que caiba mais alegria. Uma criança pode entrar nessa proposta com uma facilidade que o adulto, às vezes, passa anos tentando recuperar.
Nós já queremos saber quem vai pagar a tinta.
Começamos esta viagem examinando a música que prometia tudo. Fui conferir as condições de “Lua de Cristal”, como um adulto que encontra um contrato antigo e resolve procurar as letras miúdas. A brincadeira tinha sua razão: entre o que uma canção oferece e o que esperamos da vida, podemos acrescentar algumas garantias por conta própria.
Agora, no desembarque, seria possível fazer um balanço. Conferir quais sonhos aconteceram, quais ficaram pelo caminho, quais já não fariam sentido. Mas tenho alguma resistência a transformar a infância numa lista de metas cujo prazo venceu.
Seria uma reunião desagradável com alguém que só queria ouvir Xuxa.
O menino que eu fui tinha o direito de desejar coisas que eu não realizaria. Também tinha o direito de mudar de ideia sem precisar me consultar. Entre nós, aconteceu uma vida, com pessoas e circunstâncias que ele desconhecia. Algumas das coisas de que hoje mais gosto sequer poderiam ter entrado nos seus planos.
Não imagino que, dançando um LP inteiro, eu estivesse prevendo estas páginas. Muito menos que uma fita de aniversário de Lucas acabaria fornecendo assunto para uma delas, ou que a bonequinha vista na televisão encontraria lugar em Ana Paula.
Certas coisas que fazemos com as lembranças chegam muito depois. Na hora, estamos apenas assistindo com o irmão. E fazendo algumas críticas às animações, porque ninguém é obrigado a concordar com tudo para permanecer no sofá.
Talvez seja por isso que “Arco-íris” me pareça uma boa companhia para encerrar. Volto à canção com o que vivi desde então. Já conheço dificuldades que a criança não saberia nomear. Ainda consigo gostar das cores.
Essa convivência me interessa.
Posso imaginar uma coisa bonita e saber que realizá-la dará trabalho. Posso me entusiasmar sem exigir que o entusiasmo resolva tudo. Há uma liberdade nisso, inclusive para voltar a gostar de uma música sem submetê-la à obrigação de explicar o funcionamento do mundo.
A auditoria de “Lua de Cristal” pode descansar um pouco.
Ao longo destes textos, Xuxa me levou a lugares bastante diferentes. Em alguns, reconheci imediatamente o caminho. Em outros, precisei olhar de novo. O cartaz na escola, por exemplo, guardava experiências distintas para crianças que estavam diante das mesmas letras. As festas que pareciam surgir sozinhas tinham gente trabalhando antes da nossa chegada.
Voltar também permite perceber quem ficou fora do enquadramento da lembrança.
É uma das coisas que quero levar desta viagem. Hoje, trabalho com educação e passo parte dos meus dias pensando em experiências para crianças. Estou do lado de quem prepara, combina, procura fazer acontecer. Alguma criança talvez encontre tudo pronto e considere aquilo uma propriedade natural do lugar.
Espero que aproveite.
Ela terá tempo para descobrir que houve reunião.
Também há o que faço aqui, escrevendo. Escolho uma palavra, aproximo duas coisas que pareciam distantes, tento encontrar uma graça onde antes havia apenas um incômodo. Às vezes, uma lembrança que parecia pequena rende uma história inteira. Outras vezes, exige que eu corte três parágrafos.
A imaginação continua ativa. Agora, precisa de revisão.
Não sei quanto disso devo àquelas músicas. Seria exagero distribuir os créditos da minha vida com tamanha segurança. Sei que elas estavam lá. Participaram de tardes, brincadeiras e descobertas. E continuam disponíveis para encontros que a criança não teria como antecipar.
Inclusive este, com você.
Enquanto eu falava de Lucas, talvez você tenha pensado em alguém da sua casa. Enquanto eu tentava recordar uma gincana, pode ter aparecido outra escola. Gosto dessa possibilidade: entrego uma lembrança minha, e o leitor encontra uma passagem para a dele.
A essa altura, a nave deve estar levando muito mais gente do que eu havia calculado.
Vamos precisar desembarcar. O cotidiano continua por perto, com seus horários e aquelas coisas que esquecemos de comprar no mercado. Eu volto para ele contente por ter feito este percurso. Houve espaço para rir, sentir falta, rever uma ideia e reconhecer afeto onde eu talvez já não estivesse prestando atenção.
Quanto às promessas, encerro a conferência por aqui. Algumas possibilidades viraram histórias. Outras ainda podem encontrar um jeito de acontecer.
Por enquanto, fiquemos com “Arco-íris”.
Eu sei. Disse que era a última.
É por isso que estou deixando tocar até o fim.

