Segunda chamada: como resgatar a infância após a virulência tecnológica?

Por: Paulo Ricardo Zargolin

No início, tudo parecia inofensivo. Como bem observou Licia Assbu, pais ficavam encantados com a rapidez com que os bebês compreendiam os celulares. Em restaurantes, entregavam os aparelhos aos filhos para almoçarem em paz. As telas se tornaram presentes precoces, brinquedos silenciosos que distraíam e fascinavam. Com o tempo, crianças se tornaram mestres em jogos online, adolescentes dominaram a arte de dividir a atenção entre múltiplas janelas e mensagens instantâneas, enquanto os mais jovens absorviam vídeos em sequência infinita. Durante a pandemia, o uso de telas deixou de ser apenas conveniência e se tornou necessidade. Quando perceberam, a infância já não pertencia mais ao mundo de antes.

Sem despedidas, as crianças foram transportadas para outro território. O que antes era quintal se reduziu a uma moldura digital. O que era contato virou interação mediada. E os pais, sem notar, assistiram à transformação, acreditando estar apenas facilitando a rotina, aliviando o cansaço, oferecendo aos filhos um universo repleto de estímulos e entretenimento.

Jonathan Haidt nomeou essa era: a grande reconfiguração da infância. Um experimento silencioso que trocou brincadeiras espontâneas por notificações incessantes e acelerou uma epidemia de ansiedade e solidão. A infância livre, das ruas e dos esconderijos, deu lugar a um confinamento invisível, onde os olhos piscam menos, os corpos se movem menos e o mundo real se dissolve entre algoritmos.

Hoje, os pais chamam os filhos para a mesa, mas eles não vêm. Chamam pelo nome, e são ignorados. Presos a telas que nunca se apagam, as crianças não escutam. Estão longe, como exilados em Marte, onde o ar é rarefeito e o toque não existe.

Mas ainda há tempo para resgatá-los. Fechar aplicativos, abrir janelas. Substituir o brilho frio dos dispositivos pelo calor do sol na pele. Devolver às crianças o que nunca deveriam ter perdido: a aventura de errar e acertar sem roteiros prontos, a delícia de um tempo sem pressa, a magia das histórias contadas ao pé da cama.

Se quisermos trazê-los de volta, será preciso mais do que desligar as telas. Será preciso reaprender a chamar pelo nome, mas com presença. Reaprender a ouvir, mas com atenção. Construir laços que não dependam de conexão Wi-Fi, mas de afeto genuíno. A infância ainda pode ser resgatada. O exílio não precisa ser definitivo. Esta é a segunda chamada. Quem responderá “presente”?

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