Por: Paulo Ricardo Zargolin
Amanda já não estava mais no armário.
A cadeira de ferro ficava em outro cômodo, mais amplo, menos abafado, igualmente fechado. As mãos continuavam livres, não por descuido, mas por cálculo.
— Banheiro.
Ela foi conduzida sem resistência. A porta não fechou completamente.
Na sala, uma voz disse:
— Liga de novo.
Outra respondeu:
— Já liguei.
— Então liga melhor.
Veio um suspiro impaciente. Depois, o som seco das teclas. Em seguida, a ligação.
— O número que você me passou é o mesmo.
A voz era firme, controlada demais para ser casual.
— A gente já tinha esse.
Houve silêncio.
— Então por que ele insiste em dizer que não é casado?
Amanda parou. Não pelo conteúdo. Pelo ritmo.
Havia alguém do outro lado da linha.
A resposta veio baixa. Indistinta. Ainda assim, suficiente.
Amanda se aproximou da porta, devagar, sem tocá-la.
— Ele está negando — disse a voz masculina. — Ou não é ele.
A resposta veio de novo, mais baixa, mais medida.
Amanda fechou os olhos. Tentou capturar o som. Não as palavras. O jeito.
Algo ali não era novo.
— Não faz sentido.
Pausa.
— Não agora.
Amanda recuou antes que percebessem. Voltou, sentou-se e compôs o corpo, como se nada tivesse mudado.
A porta abriu. Os passos vieram mais rápidos desta vez.
— Você falou demais.
A frase saiu seca, sem aumento de volume.
— Ela não ouviu.
Silêncio.
— Tem certeza?
Amanda manteve o olhar baixo, a respiração regular, o corpo imóvel.
Mas agora havia algo novo.
Não era sobre o homem. Nem sobre o número.
Era sobre a voz.
Ela não sabia de onde. Ainda não. Mas sabia que não era a primeira vez.
Mais ao norte da cidade, o interfone tocou. Lucas deixou tocar mais uma vez. E outra. Só então atendeu.
— Sou eu.
Ele desceu. Não abriu o portão. Ficaram separados pela grade.
— Você não devia ter vindo.
— Eu achei que…
— Não aqui.
— A gente precisa conversar.
Lucas olhou ao redor, rápido.
— Já te disse. Não podemos nos encontrar aqui.
Voltou sem despedida.
Minutos depois, o telefone vibrou.
— Não venha mais — disse ele.
Pausa.
— E não me liga desse número.
A chamada caiu.
No cativeiro, Amanda não tentou entender. Organizou.
Havia mais de uma pessoa. Havia um número. Havia um homem.
E havia uma voz.
Agora mais próxima. Mais nítida.
Familiar demais para ser coincidência.
Do lado de dentro, Amanda permaneceu imóvel. Do lado de fora, a cidade seguia distribuindo luzes, jantares e pequenas normalidades com a precisão de quem ainda não havia entendido nada. Mas algumas horas não terminam quando acabam. Ficam suspensas, como se aguardassem autorização para cair. E, naquela noite, havia alguma coisa no ar — baixa, metódica, quase silenciosa — preparando o dia seguinte com mãos que ninguém via.
A semana que começou fora do calendário
Antes de acompanhar o desfecho, percorra os sete dias em que ausências, pétalas, telefonemas e segredos mudaram de lugar.
Entre 16 e 22 de agosto de 2026, o leitor acompanhará, capítulo a capítulo, o eletrizante final de Em uma crudelíssima semana.

