Por: Paulo Ricardo Zargolin
Capítulo 7
A FITA
O hospital explodiu novamente às nove e dezessete.
Ana Paula assistiu.
O caminhão tombou.
O combustível correu pelo asfalto.
O fogo veio depois.
Um clarão engoliu a imagem.
Ela apertou um botão.
Tudo parou.
Na televisão, uma parede de fogo ficou suspensa.
Ana Paula apertou outro botão.
As chamas começaram a recolher-se.
A fumaça desceu.
Os pedaços de vidro voltaram para as janelas.
Pessoas correram de costas.
O combustível retornou ao caminhão.
O caminhão se ergueu.
Mais um pouco.
Mais.
Até ficar novamente sobre as rodas.
Ana Paula apertou pause.
Olhou para a boneca.
— Água, fogo…
A parisiense dondoquinha ocupava a outra ponta do sofá.
Vestido armado.
Chapéu torto.
Pernas de pano cruzadas.
Nenhuma opinião.
Na sala havia uma televisão moderna.
Grande.
Fina.
E, debaixo dela, uma coisa que não deveria mais estar ali.
Um videocassete.
Preto.
Pesado.
Com botões largos.
A tampa frontal estava riscada.
O visor vermelho marcava:
00:00:00
Não importava quanto tempo a fita rodasse.
Continuava:
00:00:00.
Ana Paula apertou play.
A imagem voltou.
Não havia logotipo de emissora.
Não havia legenda.
Não havia repórter.
Não havia câmera.
Pelo menos nenhuma que pudesse ser encontrada.
A imagem avançava pelo corredor do hospital.
Parava quando Rômulo parava.
Virava quando ele virava.
Baixava quando ele olhava para a própria mão.
Em certos momentos, escurecia por uma fração de segundo.
Ana Paula já havia percebido.
Não eram cortes.
Eram piscadas.
Ela não comentou.
A boneca também não.
Na tela, a mão enfaixada de Rômulo entrou no campo de visão.
Depois desapareceu.
Uma enfermeira surgiu.
Falou alguma coisa.
Ana Paula aumentou o volume.
— …ano é?
Chiado.
A fita engoliu a resposta.
Ana Paula voltou.
Play.
— …ano é?
Chiado.
Voltou de novo.
— …ano é?
Nada.
— Você faz de propósito — disse Ana Paula.
O videocassete respondeu com um estalo.
— Eu sei.
A boneca continuava imóvel.
Ana Paula avançou a fita.
O hospital mudou.
Luzes.
Corredores.
Uma superfície transparente aparecendo no ar.
Uma parede que se abria.
Uma cidade estranha pela janela.
Ela pausou.
Aproximou-se da televisão.
Voltou alguns quadros.
Na imagem, algo passava pelo céu.
Ana Paula congelou.
Olhou.
Não havia definição suficiente.
Apenas uma sombra.
— Interessante.
Sentou-se novamente.
Play.
Rômulo correndo.
O fogo.
A sirene.
Clécia.
Ana Paula parou a fita exatamente quando a mulher aparecia.
Voltou.
Play.
Clécia.
Pause.
Aproximou-se da tela.
— Então é você.
A boneca pareceu olhar.
— Não começa.
Ana Paula voltou ao sofá.
Rebobinou muito.
A fita produziu aquele ruído antigo de plástico sendo obrigado a lembrar depressa.
Imagens correram para trás.
Fogo.
Hospital.
Corredor.
Quarto.
Escuridão.
Ana Paula parou.
— Água primeiro.
A boneca nada disse.
Ana Paula olhou para ela.
— Agora fogo.
Nada.
— Se vier terra depois, eu vou achar ofensivamente óbvio.
O telefone vibrou.
Ela não pegou.
Rômulo.
Vibrou novamente.
Ana Paula observou o nome na tela.
Depois olhou para a televisão.
Na imagem congelada, Clécia estava perto de uma ambulância.
Atendeu.
— Oi.
— Ana Paula.
A voz de Rômulo estava estranhamente boa.
Viva.
Irritantemente viva.
— Rômulo.
— Você não vai acreditar.
Ana Paula olhou para o videocassete.
— Ultimamente isso tem acontecido pouco.
Ele riu.
Ela não.
— Eu estou bem.
Silêncio.
— Bem?
— Muito.
Ana Paula levantou-se.
— Define.
— Não sei. Bem. Eu acordei… diferente.
— Diferente como?
— Vivo outra vez.
Ana Paula ficou parada.
A expressão mudou.
Pouco.
O suficiente.
— Você já estava vivo.
— Você sabe o que eu quero dizer.
Sabia.
— As manchas?
— Quase nada.
Ela olhou para a própria mão.
Depois para a boneca.
— Rômulo.
— O quê?
— Quem tocou em você?
Do outro lado, silêncio.
— Ninguém.
— Pensa.
— Eu pensei.
— Então pensa melhor.
— Ana Paula, ninguém tocou em mim.
Ela olhou para a imagem de Clécia congelada na televisão.
— Ninguém?
Rômulo demorou.
— Teve uma médica.
— Médica?
— Residente.
— Nome.
— Clécia.
Ana Paula já sabia.
Não demonstrou.
— Ela tocou em você?
— No hospital.
— Como?
— Examinou minha mão.
— Com luvas?
— Duas.
Ana Paula respirou.
— Depois?
— Depois o quê?
— Depois do hospital.
Silêncio.
— Eu fui para a casa dela.
Ana Paula olhou novamente para a televisão.
— Foi?
— O hospital explodiu.
Ela não respondeu.
Rômulo continuou.
— Ela me ajudou.
— Encostou em você?
— Não.
— Tem certeza?
— Enquanto eu estava acordado, sim.
Ana Paula fechou os olhos.
— Enquanto estava acordado.
— Eu dormi.
— Eu sei.
Rômulo ficou em silêncio.
Ana Paula percebeu o erro.
Abriu os olhos.
— Você sabe?
— Você acabou de dizer.
Pausa.
— Ah.
— Ana Paula.
Ela olhou para o videocassete.
00:00:00.
— O quê?
— O que você está fazendo?
— Nada.
— Você está estranha.
— Você liga dizendo que acordou curado depois de dormir na casa de uma mulher e eu que estou estranha.
— Eu não disse curado.
— Fez bem.
Rômulo respirou.
— Ela pode ter chegado perto enquanto eu dormia.
Ana Paula não respondeu.
— Clécia é médica. Quer dizer, residente. Ela estava curiosa com as manchas. Talvez tenha…
Parou.
— Talvez tenha o quê?
— Toc… não sei.
Ana Paula esperou.
Rômulo tentou mudar de assunto.
— Você acha que isso tem alguma coisa a ver?
— Preciso desligar.
— Ana Paula.
— Depois eu ligo.
— Não.
— Rômulo.
— Você sabe o que aconteceu comigo.
A frase ficou entre os dois.
Ana Paula olhou para a televisão.
Na tela, a imagem continuava congelada nos olhos de Rômulo.
Clécia estava ao fundo.
O fogo atrás dela.
— Eu tenho alguém na porta — disse Ana Paula.
— Você não ouviu campainha nenhuma.
— Eu ouvi.
— Eu também teria ouvido.
Ana Paula olhou para a boneca.
— Então é o interfone.
— Você não tem porteiro.
— Que memória inconveniente.
— Ana Paula…
Ela desligou.
Rômulo ligou novamente.
Recusou.
Outra vez.
Recusou.
Colocou o celular virado para baixo.
A sala ficou silenciosa.
Só o videocassete produzia um ruído baixo.
Mecânico.
Regular.
Ana Paula sentou-se.
Olhou para a boneca.
— Ele melhorou.
Nenhuma reação.
— E ela ficou branca.
A boneca continuou olhando.
Ana Paula pegou o controle.
Rewind.
O fogo recolheu-se.
Clécia voltou para trás.
Rômulo entrou no hospital.
Corredores.
Luzes.
A parede se fechou.
O quarto.
A imagem parou diante da janela.
A cidade impossível aparecia lá fora.
Ana Paula pausou.
Ficou olhando.
— Água…
Rebobinou mais.
A tela ficou preta.
Parou.
Depois play.
Nada.
Só escuridão.
Um ruído.
Respiração.
Ana Paula aumentou o volume.
Respiração.
Mais nada.
Então uma imagem apareceu por menos de um segundo.
Azul.
Água.
Ela pausou.
Tarde demais.
Voltou.
Play.
Escuro.
Ruído.
Um clarão azul.
Pause.
Ali.
Uma superfície.
Talvez água.
Talvez apenas defeito de fita.
Ana Paula aproximou-se.
A boneca tombou no sofá.
Ana Paula virou imediatamente.
Ficou olhando.
— Não.
A boneca permaneceu caída.
— Não começa.
Voltou para a televisão.
A imagem azul continuava congelada.
Água.
Ou alguma coisa que parecia água porque ela queria que parecesse.
Ana Paula desligou a televisão.
A tela apagou.
O videocassete continuou funcionando.
00:00:00.
Ela apertou eject.
Nada.
Apertou outra vez.
O aparelho fez um ruído profundo.
A fita começou a sair.
Devagar.
Ana Paula puxou.
A etiqueta estava em branco.
Pegou uma caneta.
Pensou.
Escreveu:
FOGO
Ficou olhando para a palavra.
Depois riscou.
Virou a fita.
Do outro lado, escreveu:
RÔMULO
Guardou-a numa caixa.
Havia outras.
Ana Paula fechou a tampa antes que fosse possível ler as etiquetas.
O celular vibrou novamente.
Ela não olhou.
Sentou-se ao lado da boneca.
Endireitou seu chapéu.
— Água, fogo…
A boneca permaneceu quieta.
Ana Paula olhou para a televisão desligada.
Por um instante, viu o próprio reflexo.
Depois alguma coisa pareceu mover-se atrás dela.
Virou.
Nada.
Quando tornou a olhar para a tela, havia apenas Ana Paula.
E a boneca.
O videocassete marcou:
00:00:01.
Ana Paula viu.
O número voltou imediatamente para:
00:00:00.
Ela não pareceu surpresa.

