Ana Paula #06

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Rômulo acordou no futuro.

Não teve dúvida.

A dúvida veio depois, porque dúvidas são um luxo de quem ainda reconhece o mundo.

Abriu os olhos e encontrou um teto branco sem lâmpadas. A luz simplesmente existia. Não vinha de lugar nenhum. Espalhava-se pela superfície inteira numa claridade uniforme, sem sombra, sem misericórdia e, aparentemente, sem interruptor.

Tentou mexer a cabeça.

Uma linha verde surgiu no ar.

Não numa tela.

No ar.

Passou diante de seus olhos, curvou-se e desapareceu.

Rômulo ficou imóvel.

Uma segunda linha surgiu.

Azul.

Depois números.

Batimentos.

Pressão.

Temperatura.

Seu nome.

RÔMULO FAGUNDES.

A informação permaneceu suspensa alguns segundos e sumiu quando ele tentou tocá-la.

— Não.

A própria voz pareceu atrasada.

Olhou para a mão.

Estava enfaixada.

O corte.

O espelho.

O sangue.

A ambulância.

Lembrou.

Depois não lembrou de mais nada.

Tentou sentar-se.

A cama começou a mover-se sozinha.

Rômulo agarrou o lençol.

A cabeceira subiu até colocá-lo sentado.

— Para.

Parou.

Ele olhou para os lados.

— Desce.

A cama desceu alguns centímetros.

Rômulo sentiu o estômago afundar.

— Não.

A cama permaneceu onde estava.

Havia alguma coisa presa ao seu braço.

Não era soro.

Pelo menos não um soro que conhecesse.

Uma pequena cápsula transparente repousava sobre a pele, sem mangueira, sem agulha aparente. Dentro dela, um líquido se movimentava lentamente, como se respirasse.

Perto do pulso, uma película prateada emitia pontos luminosos.

Rômulo puxou.

A película aderiu.

— Não mexa nisso.

Ele levantou os olhos.

Uma enfermeira entrara no quarto.

Rômulo não ouvira porta alguma.

Ela usava roupa branca, mas sem bolsos, botões ou costuras visíveis. Não trazia prancheta.

Também não trazia nada nas mãos.

Parou ao lado da cama e levantou dois dedos.

Uma superfície transparente apareceu diante dela.

Rômulo observou.

Ela tocou em alguma coisa que ele não conseguia ver direito.

— Senhor Rômulo?

— Que lugar é este?

— Santa Augusta.

— Hospital?

— Sim.

Ela continuou movendo os dedos diante do painel.

— Que ano é?

A mão dela parou.

Só por um instante.

— O senhor sabe seu nome?

— Sei.

— Seu nome completo?

— Rômulo Fagundes.

— Muito bem.

— Que ano é?

— O senhor sofreu um trauma.

— Eu perguntei que ano é.

A enfermeira olhou para ele.

— O médico vai conversar com o senhor.

— Você não sabe?

— Sei.

— Então fala.

Ela baixou a mão.

O painel desapareceu.

Rômulo olhou para o lugar onde estivera.

— Como você fez isso?

— Fiz o quê?

— Isso.

— Senhor Rômulo, tente ficar tranquilo.

Tranquilo.

Lá estava.

A palavra preferida das pessoas que pretendem fazer alguma coisa desagradável com você.

— Quanto tempo eu fiquei desacordado?

— Algumas horas.

Rômulo riu.

— Algumas horas.

— Sim.

— E construíram isso tudo enquanto eu dormia?

A enfermeira ficou em silêncio.

Rômulo apontou para o teto.

— Onde estão as lâmpadas?

Ela olhou para cima.

Depois para ele.

— Vou chamar o médico.

Saiu.

Rômulo acompanhou.

A parede abriu para ela.

Não a porta.

A parede.

Uma linha apareceu, dividiu a superfície e a passagem surgiu.

Quando ela atravessou, fechou novamente.

Rômulo ficou olhando.

— Algumas horas.

Virou-se para a janela.

Não havia cortina.

O vidro escureceu sozinho quando seus olhos encontraram a claridade exterior.

— Para com isso.

O vidro clareou.

Rômulo aproximou o rosto.

Lá fora, reconheceu prédios.

Ou achou que reconheceu.

A cidade parecia a mesma depois de alguém ter retirado dela tudo o que julgava desnecessário. Veículos passavam abaixo quase sem ruído. Um deles dobrou uma esquina sem que Rômulo conseguisse identificar motorista.

Mais acima, algo atravessou o céu.

Pequeno.

Rápido.

Não era pássaro.

— Que merda…

O vidro tornou a escurecer.

— Eu não mandei.

Clareou.

Rômulo recuou.

— Para.

Escureceu.

— PARA!

A parede abriu.

Entraram um homem e uma mulher.

O homem devia ter cinquenta anos. Não usava jaleco. Vestia uma espécie de camisa cinza com um pequeno símbolo próximo ao peito.

A mulher era jovem.

Cabelos presos.

Olheiras.

Expressão de quem já havia passado horas demais acordada para continuar fingindo entusiasmo pela medicina.

— Senhor Rômulo, eu sou o doutor Fábio.

Rômulo apontou para a jovem.

— E ela?

— Clécia. Residente de ortopedia.

Clécia levantou a mão.

— Oi.

Uma palavra normal.

Finalmente.

Rômulo olhou para ela como se acabasse de encontrar um objeto antigo numa escavação.

— Você sabe que ano é?

Clécia olhou para o médico.

— Sei.

— Então me fala.

— Rômulo — disse o médico —, antes precisamos entender como você está se sentindo.

— Estou no futuro.

Clécia apertou os lábios.

Rômulo percebeu.

— Você riu?

— Não.

— Riu.

— Um pouquinho.

O médico lançou-lhe um olhar.

— Desculpa — disse ela.

Rômulo gostou dela imediatamente.

Não muito.

Só o suficiente para não odiá-la junto com todo o resto.

— Quanto tempo eu dormi?

— Algumas horas — disse o médico.

— Todo mundo repete isso.

— Porque foram algumas horas.

Rômulo apontou para o braço.

— O que é isso?

O médico olhou.

— Acesso.

— Sem agulha?

O homem se aproximou.

— Tem uma agulha.

— Onde?

— Sob o curativo.

Rômulo observou.

Parecia óbvio quando o médico dizia.

Deixou de parecer óbvio quando olhou novamente.

A cápsula transparente pulsava.

— E aquilo?

Apontou para o ar.

Nada havia ali.

— Aquilo o quê?

Rômulo calou-se.

Clécia acompanhou seu olhar.

— Você está vendo alguma coisa?

— Vocês estão me mostrando.

— Nós?

— Tela.

— Onde?

Rômulo apontou.

O médico olhou para Clécia.

Clécia deixou de sorrir.

— Quero meu celular — disse Rômulo.

— Seus pertences estão guardados.

— Quero agora.

— Depois.

— Preciso saber a data.

— Eu posso dizer a data.

Rômulo olhou imediatamente para o médico.

O homem abriu a boca.

Um ruído interrompeu.

Um som eletrônico.

Curto.

Rômulo viu, no ar, um círculo vermelho surgir ao lado da cabeça do médico.

Depois outro.

O coração começou a acelerar.

— O que foi isso?

— O quê?

— Ali.

— Rômulo…

— Não fala meu nome desse jeito.

A luz do quarto mudou.

Ou ele achou que mudou.

O branco tornou-se azulado.

Os números voltaram.

Acima da cama.

Nas paredes.

Em toda parte.

135.

136.

137.

Uma linha vermelha subiu.

— Faz parar.

Clécia se aproximou.

— Respira.

— Não chega perto.

Ela parou.

Rômulo olhou para as mãos dela.

Sem luvas.

— Põe luva.

— Tudo bem.

— Duas.

Clécia olhou para ele.

Depois colocou.

Duas.

— Melhor?

Não.

Mas Rômulo assentiu.

O médico fez perguntas.

Nome.

Data de nascimento.

Onde morava.

Quem era o presidente.

Rômulo respondeu.

Quando perguntou a data daquele dia, Rômulo disse uma.

O médico ficou calado.

— Acertei.

Nenhuma resposta.

— Acertei?

Clécia abaixou os olhos.

Rômulo corrigiu.

Disse outra data.

O silêncio piorou.

Tentou novamente.

— Quanto tempo eu dormi?

— Algumas horas.

— Mentira.

Foi então que começou a explicar.

Ana Paula.

A festa.

As luvas.

As manchas.

O sangue.

O espelho.

O reflexo.

O “Boom”.

Parou.

Talvez o reflexo pudesse ter ficado de fora.

O médico levantou os olhos.

— Você disse que o espelho falou?

Rômulo respirou.

— Não exatamente.

— O que aconteceu?

— Eu ouvi.

— O espelho?

— Eu.

— Você ouviu você mesmo.

— Todo mundo ouve a si mesmo.

Clécia continuava perto da cama.

— Nem sempre em voz alta — disse ela.

Rômulo olhou.

— Você é sempre assim?

— Quando estou cansada.

— Então deve ser insuportável de manhã.

— Frequentemente.

O médico pediu que alguém fosse chamado.

Rômulo não ouviu nome.

Depois ouviu.

Psiquiatria.

— Não.

— É apenas uma avaliação.

— Não.

— Senhor Rômulo…

— Eu não sou louco.

Frase excelente.

Historicamente conhecida por resolver esse tipo de situação.

Rômulo tentou levantar.

A cama desceu sozinha.

Ele gritou.

— EU NÃO MANDEI!

Duas pessoas entraram.

A parede tornou a fechar.

Rômulo recuou.

— Não encosta em mim.

Clécia segurava alguma coisa.

Uma pequena ampola.

— Não.

— Vai ajudar.

— Você disse isso ou essa coisa falou?

Clécia olhou para a ampola.

— Eu.

— Tem certeza?

Ela hesitou.

Foi pior.

— Não chega perto.

— Rômulo.

— Que ano é?

Ninguém respondeu.

— QUE ANO É?

A agulha entrou no braço.

O futuro derreteu.

—

Quando acordou novamente, o futuro havia piorado.

A ala psiquiátrica parecia velha.

Portas comuns.

Paredes com marcas.

Cadeiras parafusadas.

Um relógio redondo.

Ponteiros.

Rômulo poderia ter beijado o relógio.

Não beijou porque ainda mantinha algum amor-próprio.

O ponteiro dos segundos avançava.

Tique.

Tique.

Tique.

— Finalmente uma tecnologia confiável.

Um homem sentado no corredor olhou para ele.

— Eles mexem quando a gente não olha.

Rômulo decidiu não responder.

Passou algum tempo caminhando.

Ou horas.

Não havia celular.

Não havia notícia.

Não havia data que considerasse confiável.

Quando perguntava, recebia respostas diferentes.

Talvez fossem iguais.

Rômulo já não tinha certeza.

Clécia apareceu mais tarde.

Agora vestia jaleco.

Um jaleco de verdade.

Com bolsos.

Rômulo quase ficou emocionado.

— Você voltou do passado.

— Vim ver sua mão.

Ela puxou uma cadeira.

— Posso?

Rômulo olhou para ela.

— Você perguntou.

— Aprendo rápido.

— Duas luvas.

— Já coloquei.

Tinha colocado.

Ela começou a retirar o curativo.

Rômulo observou.

As manchas estavam mais claras.

Ou menos claras.

Difícil dizer quando se tratava de branco.

— Está melhorando — disse ele.

Clécia examinou.

— Talvez.

— Talvez?

— Medicina usa muito essa palavra quando não quer passar vergonha depois.

Rômulo quase sorriu.

— Você acredita em mim?

— Em qual parte?

— Na doença.

Clécia olhou para a mão.

— Acredito que tem alguma coisa acontecendo.

— E no futuro?

— Nesse eu não tenho especialização.

Ela refez o curativo.

— Você acha que eu estou louco?

Clécia demorou.

— Acho que você não confia no que está vendo.

— Isso não responde.

— Eu sei.

Ela se levantou.

— Descansa.

— Não fala como eles.

— Como quem?

Rômulo olhou para o corredor.

Clécia acompanhou.

— Todo mundo.

Ela foi embora.

O relógio continuou.

Tique.

Tique.

Tique.

Então parou.

Rômulo percebeu porque o silêncio ficou diferente.

Levantou os olhos.

O ponteiro dos segundos permanecia imóvel.

Esperou.

Nada.

Um paciente do outro lado do corredor começou a rir.

— Eu falei.

Rômulo se levantou.

Foi quando ouviu.

Um estrondo.

Distante.

Tão profundo que pareceu vir do chão.

As luzes piscaram.

Outro estrondo.

Maior.

A parede tremeu.

O relógio caiu.

O vidro quebrou.

Então veio a explosão.

Não um som.

Uma presença.

O mundo inteiro pareceu empurrado para o lado.

Rômulo caiu.

Alarmes começaram a tocar.

Pessoas gritaram.

As portas abriram.

Todas.

Ao mesmo tempo.

No corredor, funcionários corriam.

Um clarão laranja atravessou uma janela.

Fumaça.

Rômulo levantou.

— O que aconteceu?

Ninguém respondeu.

Correu até a janela.

Lá embaixo, um caminhão-tanque estava tombado junto à avenida.

Combustível escorria pelo asfalto.

O fogo avançava.

Uma segunda explosão levantou alguma coisa que poderia ter sido parte do veículo.

Ou de outra coisa.

Rômulo se afastou.

— Claro.

O homem do relógio apareceu ao lado dele.

— Agora começou.

— O quê?

— O fim.

— Excelente.

O sistema elétrico falhou.

Luzes vermelhas acenderam.

Portas começaram a abrir e fechar.

Uma delas abriu para uma parede.

Outra fechou sem haver parede nenhuma.

Rômulo piscou.

Quando abriu os olhos, tudo estava normal outra vez.

Normal, naquele caso, incluía um hospital pegando fogo.

Os pacientes correram.

Rômulo correu também.

Desceu uma escada.

Subiu outra sem entender por quê.

Encontrou o mesmo corredor duas vezes.

Na terceira, percebeu.

— Não.

Virou.

Outra escada.

Fumaça.

Sirene.

Água caindo do teto.

Uma mulher passou por ele gritando.

Não tinha rosto.

Rômulo parou.

Ela virou a esquina.

Ele ficou imóvel.

— Não.

Correu na direção oposta.

Uma porta abriu.

Estacionamento.

Ar.

Fogo.

Gente.

Finalmente.

Viu Clécia perto de uma ambulância.

— CLÉCIA!

Ela virou.

Tinha rosto.

Foi um alívio desproporcional.

— O que você está fazendo aqui?

— Fugindo.

— Você não pode estar aqui.

— Concordo.

— Evacuaram a ala?

Rômulo olhou para trás.

Um homem atravessou a saída segurando um travesseiro em chamas.

— Com eficiência variável.

Clécia segurou seu braço.

Rômulo puxou imediatamente.

— Não.

Ela soltou.

— Desculpa.

Olharam um para o outro.

— Duas luvas — disse ele.

Clécia olhou para as próprias mãos.

Estavam sem nenhuma.

Horas depois, Rômulo não sabia exatamente como havia saído dali.

Lembrava do fogo.

Da sirene.

De Clécia.

De ruas que não conhecia.

Da cidade diferente.

De uma torre que tinha certeza de nunca ter existido.

Depois lembrava da casa dela.

Pequena.

Com móveis normais.

Uma televisão normal.

Uma geladeira antiga fazendo um barulho insuportavelmente reconfortante.

— Pode dormir aqui — disse Clécia.

— E o hospital?

— Amanhã.

— E a polícia?

— Amanhã.

— E o futuro?

Clécia tirou os sapatos.

— Também.

Rômulo deitou no sofá.

A televisão estava desligada.

Mesmo assim, por alguns segundos, viu a explosão refletida na tela escura.

Fechou os olhos.

Dormiu.

—

Acordou com cheiro de café.

Sentia-se bem.

Não apenas melhor.

Bem.

Sentou-se.

A mão doía menos.

As pernas pareciam leves.

O corpo estava quente.

Levou os dedos ao rosto.

Pele.

Simplesmente pele.

Foi até o banheiro.

Olhou para o espelho.

O reflexo não falou.

Rômulo sorriu.

O reflexo sorriu junto.

Exatamente junto.

— Finalmente.

Foi até a cozinha.

Clécia estava de costas.

— Acho que sobrevivi ao futuro.

Ela não respondeu.

— Clécia?

Virou-se.

Rômulo parou.

Branca.

A pele perdera a cor.

Rosto.

Pescoço.

Braços.

Uma palidez funda, irregular, conhecida.

Conhecida demais.

— Não.

Clécia olhava para ele.

Sem susto.

Sem curiosidade.

Sem medo.

— Clécia.

Nada.

— Você está me ouvindo?

Ela piscou.

Devagar.

Rômulo aproximou-se.

— Foi por causa do hospital?

Nada.

— Do fogo?

Clécia inclinou a cabeça.

— Da explosão?

A boca se abriu.

A voz saiu baixa.

Apática.

Quase sem pertencer a ela.

— Boom.

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