Maracangalha
Capítulo 22
Por: Paulo Ricardo Zargolin
O fim de tarde descia preguiçoso sobre Maracangalha do Sul. O calor, vencido por uma brisa fingida, cedia espaço a um ar morno, espesso — como quem sopra sobre brasas e não percebe.
Na esquina da Rua Teixeira de Melo, entre o toldo gasto da livraria e o poste sem lâmpada, uma figura permanecia.
Alta demais para passar despercebida.
Erguida sobre sandálias nuas, corpo ereto, sombra vertical.
Vestido vinho-seco, caimento preciso, óculos escuros.
E nas mãos, um lenço dobrado com minúcia quase devocional.
Era Dona Benta.
Para alguns, uma senhora.
Para outros, uma senhora demais.
Inerte, como se o tempo à sua volta houvesse desacelerado só para acomodá-la.
Na calçada oposta, Clara caminhava. Bolsa térmica pendendo do ombro, as alças já gastos pelo uso e pelos dias.
Dentro, pasteizinhos — carne, queijo, lembrança.
Oferecia com sua costumeira doçura cansada.
“Boa tarde.”
“São de forno.”
“Quentinho ainda.”
Do outro lado, Benta a observava.
Mas não com ternura.
Nem com raiva.
Com algo mais difícil de nomear: uma espécie de vertigem interna, como quem vê um reflexo antigo e deseja que ele passe sem notá-la.
Se Clara reparasse, veria apenas uma mulher alta, estranha, com olhos cobertos de vidro escuro e pés imóveis.
Mas não reparou.
Benta permaneceu — como uma sombra esculpida na calçada.
Foi quando a porta da livraria rangeu.
Laura saiu primeiro, rindo de algo que lera. Cristina veio depois — mais contida, olhos varrendo a rua.
— Não gosto desse tipo de mulher — disse a tia, baixo, como se o ar tivesse ouvidos.
— Que tipo? — perguntou Laura, ainda absorta.
Cristina indicou discretamente com o queixo.
— Essa aí… parada feito poste. Altiva. Observadora demais. Tem gente que parece que olha pra dentro da gente — e isso me cansa.
Laura voltou os olhos.
Benta continuava ali.
Não sorriu.
Não recuou.
Não piscou.
— Eu achei bonita — disse, simples.
Cristina bufou, como quem desiste de convencer.
— Bonita demais também fere.
Caminharam. Não muito longe.
Clara oferecia um pastel a um rapaz de bicicleta.
O sol, cansado, começava a tingir o céu de rosa sujo.
E Benta?
Permanecia.
Como um espelho antigo encostado no fim da rua. Como uma ausência com corpo.
Ela estava ali.
Não por acaso.
Não por ninguém.
Mas talvez — apenas talvez — por causa de Clara.
Ou de algo que Clara carregava e não sabia.
Ela estava ali.
Não por acaso.
Não por ninguém.
Mas talvez — apenas talvez — por causa de Clara.
Ou de algo que Clara carregava e não sabia.
Foi então que o som de um chocalho de metal se misturou à brisa abafada da rua.
— Olha quem eu vejo… — disse uma voz engordurada de malícia e riso. — Como vai, madame? E os negócios?
Tonico do Pandeiro arrastava os chinelos como se dançasse, ainda que o samba lhe tivesse faltado faz tempo.
Na mão, duas moedas. No peito, um colar com um botão de rosa artificial.
Na boca, a alegria forçada dos que vivem de fingir que não dói.
Benta se retesou.
Não por medo.
Não por desprezo.
Mas pelo que ele carregava de ruído — e de aproximação indevida.
— Faz tempo que não vejo a senhora por essas bandas — prosseguiu, alto demais. — Eu já dizia, essa esquina tava até perdendo o brilho…
Ela não respondeu.
Seu corpo permaneceu reto, mas algo em seus ombros denunciava o incômodo.
Tonico avançou meio passo. Sorriu como quem entrega flor a quem não pediu perfume.
— Tá calada? Vai me ignorar? Tô limpo, viu? Nem bebi hoje. Só vim saber se ainda vende seus encantos.
A frase caiu pesada.
Não por vulgar — mas por pública.
Dita em tom de graça, de frente pra rua, diante de olhos que poderiam ouvir.
Cristina olhou de soslaio.
Laura fingiu não notar.
Clara, por sorte — ou por milagre — conversava com uma senhora que comprava dois pasteizinhos e pedia troco miúdo.
Benta virou o rosto.
Quase imperceptível.
Como se o vento tivesse empurrado seus olhos para longe.
— Não devia me chamar assim, Tonico — disse, por fim.
A voz seca.
Baixa.
Quase uma rachadura.
— Assim como? — perguntou ele, sincero ou fingido.
— De madame.
— Ah… desculpe. Quer que eu chame de quê, então?
— De silêncio.
Tonico coçou o queixo, riu sozinho, e saiu com seu som de chinelo e riso frouxo.
Sumiu dobrando a rua, como se levasse um pouco da paz com ele.
Benta voltou à sua imobilidade.
Mas já não era a mesma.
Algo nela havia trincado.

