Hoje, Dayana completa quarenta anos. Eu a conheço desde 2016. Portanto, dos quarenta anos que ela carrega, acompanhei dez. Um quarto de existência. Em matemática, é pouco. Em amizade, pode ser uma vida inteira.
E a amizade, convenhamos, nunca foi muito boa em matemática.
Em 1996, Roberto Carlos e Erasmo Carlos compuseram uma canção sobre uma mulher de quarenta anos. Nela, um pretendente se encanta por alguém cuja história não faz questão de conhecer. Talvez seja uma licença poética do amor romântico. Eu, na condição de amigo, penso justamente o contrário: conhecer a história é uma das formas mais bonitas de amar alguém.
Não apenas as passagens felizes, naturalmente. As histórias que gostaríamos de reescrever também contam. Os tropeços, as decisões precipitadas, as esperanças que não deram em nada e aquelas que, contrariando todas as previsões, deram. Afinal, ninguém chega aos quarenta como quem desembarca de uma viagem sem bagagem.
Dayana certamente não.
Durante esses dez anos, nossa amizade atravessou mudanças, descobertas, conversas intermináveis e algumas discordâncias. Porque existe uma confusão bastante comum entre gostar de alguém e concordar com essa pessoa. Eu nunca fui muito competente nessa segunda modalidade.
Mas aprendi que a amizade verdadeira não exige concordância permanente. Exige permanência, inclusive quando discordamos. É a liberdade de dizer o que pensamos sem transformar cada divergência numa despedida.
Talvez seja essa uma das descobertas que o tempo nos oferece: há pessoas com quem dividimos circunstâncias e outras com quem dividimos a própria vida. As primeiras podem desaparecer quando as circunstâncias mudam. As outras encontram maneiras de permanecer.
E então chegamos à distância.
Existe uma geografia curiosa nas amizades adultas. A vida espalha as pessoas por cidades diferentes, impõe compromissos, reduz encontros e transforma a espontaneidade de uma visita numa operação que depende de agendas. Às vezes, a convivência inteira precisa caber numa mensagem ou num áudio que ouvimos enquanto fazemos outra coisa.
Apesar disso, continuamos próximos.
Não porque a distância seja irrelevante. Ela existe, incomoda e nos rouba ocasiões que jamais serão recuperadas. Mas também revela algo que a proximidade cotidiana pode esconder: existem relações que não dependem da presença constante para continuar existindo.
A amizade amadurece quando descobrimos que estar perto e estar presente não são exatamente a mesma coisa.
Quanto aos quarenta anos, tenho algumas ressalvas.
A sociedade mantém uma relação particularmente inconveniente com o envelhecimento feminino. Aos vinte, espera que a mulher descubra quem é. Aos trinta, cobra que tenha resolvido a vida. Aos quarenta, parece exigir uma prestação de contas sobre tudo aquilo que ela deveria ter realizado.
De preferência, com aparência impecável, independência emocional, sucesso profissional e uma felicidade que possa ser fotografada.
Que tremenda falta de educação com o tempo alheio!
Uma mulher de quarenta não precisa ser uma versão definitiva de si mesma. Pode continuar procurando, mudando de opinião, desejando o improvável, cometendo enganos e descobrindo vontades que desconhecia aos vinte. Pode, inclusive, não saber o que quer em determinados momentos.
A maturidade não elimina as dúvidas. Talvez apenas nos ensine a conviver com elas sem pedir tantas desculpas.
E eu gosto de pensar que Dayana chega aos quarenta com esse direito intacto: o de não estar pronta.
Porque não somos produtos acabados. Somos histórias em andamento, escritas enquanto acontecem, frequentemente sem tempo para revisão. Algumas páginas saem bonitas. Outras pediriam uma reescrita completa. Mas é o conjunto, com suas imperfeições, que nos torna quem somos.
Hoje, quando penso na menina que Dayana foi, na jovem que se tornou e na mulher que agora celebra quatro décadas, reconheço que conheci apenas parte desse percurso. Não testemunhei sua infância, não acompanhei suas primeiras descobertas e não estive presente em tantas ocasiões que ajudaram a construir a pessoa que conheci em 2016.
Mas tenho os nossos dez anos.
Tenho as conversas, as preocupações divididas, as risadas e a intimidade construída sem necessidade de explicações excessivas. Tenho, sobretudo, a tranquilidade de saber que nossa amizade não depende de uma versão idealizada de nenhum de nós.
E isso, para mim, é muito.
Amanhã, depois de quarenta anos de existência, haverá motivos para celebrar a mulher que Dayana se tornou. Eu celebrarei também aquela que ela ainda poderá ser. Não desejo que os próximos anos simplesmente confirmem suas escolhas anteriores. Desejo que tragam possibilidades que ela ainda nem imaginou.
Que o tempo lhe ofereça histórias bonitas, sem exigir que todas tenham finais felizes. Que a distância nunca lhe faça confundir ausência física com falta de afeto. E que ela se permita viver sem a obrigação de transformar cada aniversário numa avaliação dos resultados alcançados.
Afinal, fazer quarenta anos não é chegar atrasada a lugar nenhum. É simplesmente continuar.
Dayana, dos seus quarenta anos, dez também fazem parte da minha história.
Não posso reivindicar os trinta anteriores, tampouco garantir quantos ainda teremos pela frente. Mas posso dizer que foi uma felicidade encontrar você no meio do caminho.
E, se a vida permitir, quero continuar por aqui. Não necessariamente para concordar com tudo, como você bem sabe, mas para acompanhar os capítulos seguintes.
Porque o tempo passa, as mulheres envelhecem, os amigos se distanciam geograficamente e o mundo insiste em transformar a vida numa corrida.
Só que algumas amizades nos ensinam uma coisa extraordinária: há pessoas que, mesmo longe, continuam caminhando conosco.
Feliz aniversário, minha amiga.
30 out. 2026.

