Barocistão começou, para mim, muito antes de virar República.
Veio de um livro de espanhol.
Na cena, um manifestante reclamava em praça pública que, toda vez que um feriado caía numa quinta-feira, emendavam a sexta. As pessoas não trabalhavam. O país não produzia. A economia parava.
A crítica começava a soar perigosamente familiar.
Até que vinha a correção:
¡No, señor guarda! Hablo de Barocistán…
Durante anos, Barocistão ficou guardado nesse lugar peculiar da memória onde sobrevivem piadas de livro didático, exemplos de aula e frases que aparentemente não serviriam para mais nada.
Serviram.
Porque há momentos em que estudar História exige senso de humor.
Não porque o passado seja engraçado.
Geralmente não é.
Golpes, deposições, revoltas, coroações, constituições, quarteladas, alianças improváveis, elites mudando de lado com uma agilidade admirável.
O curioso é perceber que, depois de algum tempo, certas passagens históricas começam a parecer menos uma epopeia e mais uma reunião de condomínio que saiu do controle. Talvez por isso valha tanto desconfiar dos relatos muito arrumadinhos. O Logosgrafia já esbarrou nessa questão ao falar dos perigos de uma história única.
Quando a História tira a gravata
A sátira histórica funciona justamente aí.
O Quinto dos Infernos devolveu defeitos, desejos e ridículos a personagens cuidadosamente embalados pelos livros escolares.
Caramuru brincou com nossa necessidade de transformar origem nacional em epopeia.
A História Bêbada levou a proposta quase ao limite: se parte da História já parece resultado de decisões inexplicáveis, narrá-la em estado alterado talvez seja apenas coerência formal.
A sátira não precisa necessariamente inventar o absurdo. Às vezes basta retirar a moldura dourada. Desligar o hino. Perguntar quem pagou a conta. De repente, a História volta a parecer coisa de gente. E rir, como já apareceu em Rir no Brasil em 2026, também pode ser um modo de olhar com mais atenção.
Foi assim que Barocistão ganhou governo
O país daquela velha lição de espanhol cresceu.
Ganhou repartições.
Ganhou militares.
Ganhou atas.
Ganhou família real.
Ganhou influenciadores.
E ganhou Gutiérrez.
Um administrador acostumado a resolver problemas objetivos, organizar regras e administrar interesses conflitantes.
O tipo de homem que talvez descobrisse, tarde demais, que governar um país não é exatamente administrar um condomínio.
Embora algumas reuniões façam parecer o contrário.
Nos primeiros capítulos de República de Barocistão, a passagem da Monarquia para a República vai se construindo assim.
Nem sempre pelos grandes gestos que futuramente aparecerão nos livros.
Às vezes por ressentimento.
Às vezes por conveniência.
Às vezes por um documento que parece pronto cedo demais.
Às vezes por pessoas que descobrem suas convicções políticas com impressionante rapidez quando percebem para onde o vento está soprando.
A História organiza tudo depois
Essa talvez seja uma das grandes vantagens da historiografia.
Depois que alguma coisa acontece, parece que tudo levava inevitavelmente até ali.
Os republicanos sempre foram republicanos.
Os conspiradores sempre conspiraram.
Os discursos decisivos sempre foram decisivos.
As atas registram solenemente:
“Após ampla discussão, deliberou-se…”
Ninguém precisa saber quanto durou a discussão. Nem quem ouviu quem. Nem se a deliberação já estava digitada.
O documento tem esse poder. Ele pega gritos, hesitações, vaidades, interesses pessoais e café frio e transforma tudo em institucionalidade. A política real também ganha explicações depois que o tempo reorganiza a bagunça, como provoca Tudo o que o tempo conta sobre a crise política de 2026 no Brasil.
Barocistão aprecia muito esse tipo de milagre.
Qualquer semelhança…
Países fictícios sofrem uma injustiça.
Tudo o que acontece neles parece alegoria.
Se o rico fica mais rico, alguém procura crítica social.
Se o pobre fica mais pobre, também.
Se um militar diz que está apenas garantindo a ordem, começam as comparações.
Se a elite muda de opinião de uma manhã para outra, pior ainda.
Não deixam Barocistão viver em paz.
Por que uma República inventada não poderia simplesmente ter uma proclamação preparada antes da reunião que deveria decidir se ela seria proclamada?
Por que não poderia haver gente aderindo ao novo regime e, depois, explicando que sempre acreditou nele?
Por que toda coincidência precisa ser interpretada?
É ficção.
Respeitem.
Barocistão entrou no mapa
A partir de 1º de novembro, aquele país que durante tantos anos existiu apenas numa lembrança de aula passa a ocupar outro território.
O Logosgrafia.
República de Barocistão nasce dessa mistura entre memória, História, absurdo político, sátira e aquela desconfortável sensação de que certas ficções precisam inventar muito pouco.
Se, durante a leitura, você achar que reconheceu um país, uma instituição, um comportamento social ou alguma aberração burocrática, mantenha a calma.
Não provoque incidente diplomático.
Não chame o Itamaraty.
Explique apenas:
Não, senhor guarda. Estou falando de Barocistão.

