Castelos de areia

Antes de continuar, assista.

A canção apresentada no vídeo começa com uma imagem aparentemente simples: crianças passam a tarde construindo castelos de areia que uma onda levará.

Talvez exista aí uma sabedoria que vamos desaprendendo conforme crescemos.

Quando crianças, construímos porque construir é divertido. O desaparecimento do castelo não invalida a tarde. Não pensamos que houve desperdício porque aquilo não permaneceu. Houve areia nas mãos, imaginação, alguma arquitetura impossível e, provavelmente, vontade de fazer tudo outra vez.

Depois crescemos e começamos a exigir permanência das coisas.

Queremos que durem o trabalho, os projetos, as relações, as certezas e, no limite, nós mesmos. Passamos a medir parte do valor daquilo que fazemos pela capacidade que terá de sobreviver ao tempo.

Mas a onda continua vindo.

Talvez por isso seja tão bonita a imagem dos meninos que passam a tarde construindo aquilo que o mar inevitavelmente levará. Eles não precisam vencer o mar para justificar o que fizeram. Há algo dessa mesma potência na maneira como a infância se abre ao devir: o valor da experiência não depende de sua permanência.

E nós?

Quantas vezes adiamos uma experiência porque ela não produzirá nada? Quantas coisas deixamos de fazer porque não permanecerão? Quantas cachoeiras ficam pelo caminho enquanto tentamos construir alguma coisa suficientemente sólida para convencer o tempo a parar?

Há alguma coisa de profundamente humana em passar a vida construindo castelos de areia sabendo — ou fingindo não saber — que existe uma onda.

No fim, talvez viver seja também aprender essa pequena ciência dos castelos de areia: fazer alguma coisa bonita entre duas ondas.

E, enquanto a próxima não chega, entrar em algumas cachoeiras.


Vídeo compartilhado a partir de publicação no Instagram. Reflexão: Paulo Ricardo Zargolin — Logosgrafia.

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