Eu colocava o disco para tocar. Inteiro.
Quando lembro de Sexto Sentido, lembro de dançar do começo ao fim. Havia uma disposição física que hoje eu gostaria de encontrar disponível para arrumar a casa. Mas o corpo parece fazer distinções bastante rigorosas entre suas obrigações.
Com Xuxa, havia acordo.
Uma música terminava, outra começava, e eu continuava. O disco inteiro cabia na minha vontade. Entre aquelas canções, “Muito prazer, eu existo” trazia um assunto que merece mais atenção nesta viagem: as pessoas com deficiência e o modo como reconhecemos, ou deixamos de reconhecer, sua presença.
O título começa com uma gentileza. Muito prazer. Depois, comunica uma coisa que, a rigor, já deveria ter sido percebida.
Eu existo.
Há algo incômodo na necessidade desse aviso. Uma pessoa está diante de nós e, ainda assim, precisa lembrar que tem vontades, sentimentos, preferências, alguma coisa a dizer. Às vezes, encontra gente muito disposta a falar sobre ela. O interesse diminui um pouco quando chega a vez de ouvi-la.
Durante muito tempo, a palavra “normal” circulou com uma autoridade impressionante. Separava crianças, estabelecia expectativas, ajudava a decidir quem participaria de quê. Quase ninguém parecia exigir as credenciais de quem a empregava.
Ser considerado normal era uma vantagem cujo regulamento ficava com os outros.
A canção me interessa nesse contexto. Xuxa colocava no repertório infantil um convite para reconhecer quem frequentemente era tratado pela diferença, pela limitação ou pela piedade. No meio de um disco que eu dançava inteiro, havia espaço para prestar atenção à existência de outra pessoa.
Não vou atribuir ao menino que fui uma compreensão que estou elaborando agora. Eu gostava da música. O adulto é que pode voltar a ela e perceber melhor o que estava sendo cantado.
E, no que dependia daquela canção, o convite estava feito.
O restante precisava acontecer entre nós. Na brincadeira, na escola, na maneira de dirigir a palavra a alguém, na disposição de modificar uma atividade para que mais uma criança pudesse participar. A música acabava; havia bastante coisa por fazer.
Hoje, temos mais palavras para nomear diferenças e necessidades. Um diagnóstico pode ajudar a compreender dificuldades e orientar apoios. Gosto de pensar no que esse conhecimento permite fazer pela pessoa. O problema é quando o nome encontrado encerra a curiosidade sobre ela.
Já sabemos “o que tem”. Parece que estamos dispensados de descobrir do que gosta.
É nesse sentido que às vezes vejo tanta disposição para diagnosticar, tão pouca para conhecer. Uma pressa em classificar o comportamento alheio, acompanhada de uma lentidão extraordinária para escutar, respeitar um tempo diferente ou mudar alguma coisa no ambiente. A pessoa recebe uma explicação. A convivência continua esperando providências.
Há quem aprenda todas as siglas e conserve intacta a impaciência.
Deficiência, diferenças de comportamento e dificuldades de aprendizagem têm suas particularidades. Justamente por isso, conhecer alguém exige mais cuidado do que distribuir rótulos. Mesmo quando existe um diagnóstico, continua existindo uma pessoa que ele não descreve por inteiro.
“Muito prazer” pressupõe que ainda temos alguém para conhecer.
Talvez essa seja a parte da apresentação que mais facilmente esquecemos. Podemos saber o nome de uma condição e ignorar o nome do colega. Podemos defender a inclusão com desenvoltura e não perceber quem passou a atividade inteira sem encontrar um jeito de participar.
A nossa normalidade também deveria aceitar algumas perguntas.
Em janeiro de 2013, publiquei aqui no Logosgrafia um texto chamado “Muito prazer, eu existo”. Eu discutia a expressão das ideias, a educação e a convivência com a discordância. Ao relê-lo, encontro a vontade de me fazer ouvir e, no final, o reconhecimento de que havia outro diante de mim.
Hoje, voltando à canção, eu acrescentaria uma atenção: cada pessoa encontra maneiras de se expressar, e escutar também exige que a gente aprenda. A conversa fica bastante limitada quando só reconhecemos como participação aquilo que se parece com a nossa.
O autor de 2013 deixou registrado que seus pensamentos podiam mudar. Agradeço a previsão. Permite que a conversa prossiga.
Quanto ao menino que dançava Sexto Sentido, prefiro deixá-lo terminar o disco. Ele não precisava produzir uma reflexão sobre cada faixa para que aquela experiência tivesse valor. Havia prazer, movimento e uma voz conhecida cantando sobre pessoas que mereciam ser reconhecidas.
Anos depois, continuo encontrando coisas naquele LP.
Desta vez, fico com a delicadeza e a firmeza da apresentação. Muito prazer, eu existo. Há alguém ali, antes das nossas conclusões, esperando uma oportunidade de participar.
Podemos começar devolvendo o cumprimento.

