O gosto que fica

Uma música de 1994, um drink em 2026 e uma palavra em inglês que levou mais de trinta anos para me explicar por que nunca foi embora.

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Há músicas que a gente escolhe ouvir.

Outras simplesmente nos encontram.

Recentemente, eu estava em um pub, tomando o drink da casa, quando percebi que alguma coisa conhecida vinha da televisão. Não era exatamente o tipo de ambiente em que eu esperaria encontrar uma lembrança da infância. Havia copos, conversa, luzes, morangos, hortelã e aquela distração própria de quem saiu apenas para aproveitar a noite.

Na TV, passava a gravação de uma apresentação ao vivo.

Então vieram os primeiros acordes.

Linger.

The Cranberries.

Não precisei pensar muito. Reconheci antes mesmo de organizar a lembrança.

E, por alguns minutos, o pub deixou de ser apenas o pub.

Era 1994 outra vez.

A música que veio pela televisão

Eu conheci Linger por causa de A Viagem.

A novela estreou em 1994 e sua trilha internacional tinha aquela música do The Cranberries que eu, naturalmente, não compreendia em inglês. Não precisava compreender.

Naquele tempo, muita música estrangeira entrava na nossa vida assim.

Primeiro vinha a novela.

Depois, a cena.

O casal.

A música tocando ao fundo.

Talvez aparecesse no rádio. Talvez alguém tivesse o CD. Talvez a gente nem soubesse exatamente quem cantava.

Mas sabia reconhecer.

E isso bastava.

Linger era tema de Raul e Andrezza e passou a ocupar aquele território muito específico que as trilhas de novela brasileiras construíram durante décadas: um lugar em que música e ficção se misturavam tanto que, anos depois, bastavam alguns segundos de introdução para uma época inteira reaparecer.

Eu era criança.

Não sabia o que linger significava.

E talvez essa seja justamente a melhor parte desta história.

Trinta e dois anos depois

Foi somente muito tempo depois que a palavra chamou minha atenção por outro caminho.

Linger significa permanecer.

Demorar-se.

Continuar.

Ficar por mais tempo do que se esperava.

E há um uso particularmente bonito dessa ideia quando falamos de sabores e aromas.

Aquilo que permanece depois.

O gole termina, mas alguma coisa continua na boca.

O sabor fica.

E foi inevitável pensar na música.

Porque havia alguma ironia naquela cena.

Eu estava diante de um copo, experimentando sabores, enquanto uma canção que conheci em 1994 voltava a tocar diante de mim.

A música terminaria.

O drink também.

Mas alguma coisa permaneceria.

Linger.

Talvez eu tenha levado mais de trinta anos para entender a palavra.

Mas passei todo esse tempo conhecendo perfeitamente o seu significado.

A infância não pede tradução

Quando somos crianças, não precisamos compreender todas as palavras para guardar alguma coisa.

Guardamos sons.

Cores.

A abertura da novela.

O rosto dos personagens.

Um pedaço do refrão pronunciado de um jeito provavelmente errado.

Uma música que tocava quando os adultos estavam assistindo televisão.

E essas coisas vão sendo depositadas em algum lugar estranho da memória.

Não pensamos nelas todos os dias.

Às vezes, não pensamos nelas durante anos.

Mas elas continuam lá.

Talvez nostalgia seja justamente isso: a persistência de coisas que acreditávamos ter terminado.

Não é necessariamente vontade de voltar.

É perceber que alguma parte daquele tempo continuou viajando conosco.

Algumas músicas permanecem

Linger fala, ela própria, sobre aquilo que insiste em permanecer quando talvez já devesse ter ido embora.

Há afeto, frustração, vulnerabilidade, apego.

Uma relação pode terminar antes do sentimento.

Uma conversa pode acabar antes daquilo que ela provocou.

Um instante pode durar muito mais do que o próprio instante.

Talvez por isso seja tão curioso que essa música tenha reaparecido para mim justamente assim.

Não fui procurar Linger.

Não coloquei uma playlist dos anos 1990.

Não decidi revisitar a trilha sonora de A Viagem.

Eu apenas estava sentado em um pub.

O drink estava sobre a mesa.

Na televisão, alguém começou a cantar.

E trinta e dois anos desapareceram durante alguns acordes.

O copo daquela noite
O copo daquela noite. Às vezes, uma lembrança precisa apenas de alguns acordes para voltar à mesa.

Talvez seja essa uma das coisas mais bonitas das músicas que atravessam a nossa vida.

Elas não ficam necessariamente tocando.

Ficam esperando.

E, de vez em quando, reaparecem em lugares improváveis apenas para nos mostrar que nunca foram embora de verdade.

Em 1994, eu não sabia traduzir linger.

Em 2026, descobri que não precisava.

A música passou mais de trinta anos fazendo a tradução por conta própria.

Porque algumas músicas acabam.

Outras ficam.

Ou, se quisermos dizer como naquela velha canção: elas linger.

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