Maracangalha #24: No texto, pelo menos

Por: Paulo Ricardo Zargolin

A manhã chegou com cheiro de álcool. Não o das mãos limpas. O das tentativas. Espalhado demais. Forte demais. Como quem borrifa pra disfarçar — não pra limpar.

Tomaz encostou-se ao batente da sala da diretora. Observava.

Dona Magda conversava com a servente como quem varre segredo para debaixo do jaleco.

— Sumiram — dizia a mulher de uniforme azul, com a vassoura parada no meio do gesto. — Dois botijões.

— E o alarme?

— Não tocou.

— Foi programado ontem?

— Era pra ter sido… deixei com a Claudinha.

— Claudinha não veio ontem.

Silêncio. Só a cara da culpa revezando de rosto em rosto.

— E as portas?

— Intactas.

Tomaz desviou o olhar antes que o vissem ali. Voltou pro corredor como quem recolhe pedaços de um sussurro.

Então, o zelador apareceu correndo — ou tropeçando no próprio cansaço.

— Dona Magda! Não tem luz nas salas do fundo! Nem sinal! Quadro apagado, bebedouro mudo, ar condicionado tossindo. Tô indo ver a parte de fora.

Ela apenas assentiu com um gesto mole. Era cedo demais pra tanto defeito.

Tomaz seguiu até sua sala. Antes de entrar, desbloqueou o celular.

Grupo da família:

“PARENTES & ORAÇÃO 🕊️❤️”

[Tia Nadir – 08:07]

affffff gente, o postinho tá sem luz

tô aqui passando mal de calor, as enfermeira com a cara mais azeda q vinagre

n tem nem copo descartável, imagina médico

[Wagner – primo – 08:09]

roubaram gás da cozinha da central da merenda

meteram a mão, de novo

o povo finge q não vê pq é prefeitura né

se fosse na nossa casa era BO e escândalo

Tomaz travou o celular.

Olhou pro chão.

Inspirou fundo.

Então, abriu o outro aplicativo.

O outro perfil. A outra face.

[Sombra11 – 08:11]

como tá o centro de comando, Ísis?

gás sobrando e energia faltando?

Sem emoji. Sem ponto final. Só o toque ácido de quem sussurra sabendo que vai ecoar.

***

Ísis já tinha atravessado aquele saguão dezenas de vezes.

Mas nunca com tanto barulho.

Populares entravam com a fala alta, celular em punho, prontos pra gravar o descaso.

Havia gente com papel na mão, outros com olheiras, e alguns com raiva quieta — que era sempre a mais perigosa.

A recepcionista fazia malabarismo entre protocolos e suspiros.

— Minha mãe tem cirurgia marcada hoje, moça. Como é que fica sem energia?

— Meu menino tá com febre, ninguém atende o telefone do postinho. Eu vou subir, pra falar com seu Agenor, viu?

— A cozinha da merenda tá parada, isso é sabotagem ou incompetência?

Do outro lado, os diretores de departamento começaram a chegar. Quase todos juntos. A maioria com cara de quem não sabia nada, mas já vinha ensaiado.

Na sala de reuniões, o prefeito ajeitava a gravata em frente à câmera do notebook.

— Vamos manter a calma — dizia. — É momento de resposta institucional. Técnica. Vamos controlar a narrativa. A prioridade agora é a comunicação.

Ísis, de pé no canto da sala, digitava num computador antigo que já parecia tossir junto com o sistema. Recebeu o esboço da nota oficial por e-mail. Revisou com olhos de quem não se comove. Ajustou termos, limpou os erros e engoliu os eufemismos.

“A Prefeitura Municipal informa que, devido a um provável problema técnico de distribuição elétrica, alguns setores públicos foram afetados temporariamente. O fornecimento será restabelecido com apoio da concessionária. A administração está acompanhando de perto e reafirma seu compromisso com a transparência e a segurança de todos os cidadãos.”

Publicou a nota no site. Repostou nos perfis da prefeitura.

Verificou os comentários — os primeiros já reclamavam da palavra “provável”.

Quando o fim da manhã se aproximava, com os ânimos aparentemente mais calmos, Ísis copiou o link da publicação.

Abriu o app, no campo das mensagens.

Perfil: @Sombra11

[Ísis – 12:02]

https://prefeitura.maracangalhadosul.sp.gov.br/notas/curtocircuito

pronto. a luz voltou. no texto, pelo menos.

***

Na saída da escola, Tomaz avistou o carro parado do outro lado da rua.

Era sempre aquele mesmo carro — discreto, funcional, e cada vez mais parecido com quem o dirigia.

Belisário desligou o motor antes mesmo de acenar.

Vestia a camisa da prefeitura, com o crachá pendurado, para aparecer bem no retrovisor, como se quisesse lembrar à cidade quem era — ou quem fingia ser.

Tomaz entrou no carro sem falar.

O pai girou a chave novamente, como quem prefere o barulho do motor ao silêncio entre os dois.

— E aí, tudo certo na escola? — arriscou, voz baixa.

— Sumiram dois botijões — respondeu o filho, direto.

— Ah…

— Também faltou energia nas salas do fundo.

— Ah, é? Devem ter mexido no quadro. A rede anda instável.

Tomaz virou o rosto para a janela.

A cidade passava devagar demais — como se também fingisse que estava tudo bem.

No celular, ainda aberto no colo, o grupo da família seguia em ebulição.

Alguém havia compartilhado a nota oficial da prefeitura.

Wagner respondeu com uma figurinha de um palhaço batendo palmas.

Belisário pigarreou.

— Lá na central também andaram reclamando da energia.

— E do gás, né?

O pai engoliu seco.

— Isso aí já resolveram.

Tomaz virou-se, pela primeira vez, para encará-lo.

Olhos firmes. Voz contida.

— Resolveram… ou apagaram?

O silêncio que veio depois não foi grosso. Foi fino, cortante.

Desses que deixam ferida limpa.

Belisário não respondeu.

Apenas parou na frente de casa e desligou o carro.

A chave girou com o mesmo som metálico de quando se fecha um quarto onde se guarda algo que não se quer ver.

Tomaz desceu primeiro.

Entrou sem bater a porta, mas deixou o ruído de sua pergunta pairando no ar.

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