Maracangalha
Capítulo 23
Por: Paulo Ricardo Zargolin
Bartira enxugava as mãos no pano de prato quando a campainha tocou.
Era raro alguém chegar àquela hora — principalmente sem avisar.
Abriu a porta com o corpo ainda de lado, cautelosa.
Um homem alto, bem apessoado, vestindo um terno cinza grafite e um relógio que piscava com discrição, curvou-se levemente.
— Boa noite. Sou Ricardo.
Ela ergueu uma sobrancelha discreta.
"Não tem cara de Ricardo, mas é melhor não comentar."
— Estou representando o nobre deputado, Dr. Paiva.
— Ah sim!? — soltou, sem conseguir disfarçar o susto.
Conhecia o nome.
Dr. Paiva era o rosto de todas as propagandas da cidade — e das promessas de verba federal para os hospitais da região. Foi ele, dizia-se, quem havia “salvado” a oncologia do hospital central.
Bartira pensou no filho mais velho.
Pensou nas madrugadas frias de espera.
Pensou na última sessão de quimioterapia.
Os olhos marejaram.
— Me… me dê só um instante. A dona… A dona está no andar de cima.
— Claro — disse Ricardo, com voz límpida e seca, como quem recita números.
Ela entrou, o coração ainda batendo como quando a ambulância atrasava.
Enquanto preparava um drink — gim, uma fatia de limão, um toque de xarope de lavanda, escolha do próprio rapaz — murmurou algo como “Deus sabe o que faz”.
Subiu as escadas com cuidado.
Encontrou Benta olhando a rua pela janela do quarto.
Disse apenas:
— Dona… tem um moço lá embaixo. Veio em nome do doutor. Aquele do hospital.
Benta não virou o rosto.
Apenas ajeitou o lenço no pescoço.
E sussurrou:
— Não existem visitas inocentes depois das oito, Bazinha.
***
Com o drink já em mãos, Ricardo caminhava lentamente pela sala de estar, os olhos percorrendo os quadros com desdém disfarçado de admiração.
Havia algo de estudado em seus gestos — como se até o modo de segurar o copo fosse ensaiado em frente ao espelho.
O estalo dos passos de Benta no piso encerrou a contemplação.
Ela surgiu como quem já sabia de tudo.
— Você é Fernando, não é? — disse, sem rodeios, com a voz precisa de quem nomeia o passado.
Ele virou-se, surpreso.
— Filho do compadre Jonas.
— Eu… — tentou disfarçar o espanto.
— Frequentava minha casa quando moço. Lembro bem. Tomava sopa de abóbora e deixava o prato limpo. Virou menino de recado do Paiva, foi? Triste fim.
Ele sorriu amarelo.
Tomou um gole demorado.
Quando devolveu o copo ao porta-bandejas, o gesto soou como uma bofetada polida.
— Lembro bem da outra casa. Esta aqui… está bem melhor instalada. Com arte por toda parede. Dr. Paiva investiu bem em seu bom gosto.
Benta nem piscou.
Passou um dedo sobre o braço da poltrona, como quem mede poeira ou paciência.
— E ele sabe bem que não devo nada. Então, se veio com cobranças, pode dar meia-volta, queridinho.
O “queridinho” doeu mais que qualquer ofensa.
Fernando respirou fundo.
Deixou o veneno evaporar — ou tentou.
— Perdoe-me a incisão, Dona Benta. Não vim com faturas nem ameaças.
— Ainda bem.
— Vim com… proposta.
Ela não respondeu.
— A mando de Dr. Paiva.
— Claro. Ele mesmo jamais viria.
— Ele acredita que… — ajeitou a gravata que não usava — você poderia representar uma força de transição.
— Transição de quê?
— Da vergonha para a utilidade pública.
— Engraçado. Sempre achei que a vergonha fosse dele.
Fernando hesitou.
Por um segundo, abaixou o olhar.
O homem elegante, ensaiado, quase escorregou ali.
Mas segurou-se.
— Não precisamos gostar um do outro.
— Que bom.
— Mas o senhor Paiva… acredita que há espaço para novos nomes. O povo precisa de uma mulher forte. Visível. Carismática. E… respeitada. Mesmo que, no passado, tenha sido…
— Cuidado — ela o interrompeu, serena. — Há palavras que envelhecem mal.
Silêncio.
O relógio da sala, antigo, fez questão de marcar os segundos.
— Pense, Dona Benta. Só pense.
— Já pensei muito. Mas posso… refletir.
Fernando esboçou um sorriso.
— Não se anime, garoto. Refletir também é o que os espelhos fazem — e eles não dizem sim pra ninguém.
Bartira voltou à sala com os passos medidos, o pano de prato nas mãos como quem segura um segredo doméstico.
— Com licença, Dona… — disse, quase num sussurro. — Posso preparar outro drink pro moço?
Havia na voz um zelo que misturava respeito e resquício de esperança — dessas que ainda acreditam em autoridades que anunciam verbas com a voz embargada na televisão.
Mas Benta não deu tempo para o rapaz engolir o último gole.
— O moço está de saída, Bá. Não se preocupe.
Fernando se recompôs, ajeitando a lapela do paletó como quem ajeita uma desculpa.
Antes de sair, voltou-se para a funcionária:
— Eu lhe disse que me chamava Ricardo. Menti. Por… cautela. Não queria envolver ninguém. Meu passado também não é exatamente… exemplar.
E partiu. Com aquele tipo de elegância que só o desconforto sabe ensinar.
Bartira fechou a porta devagar, como quem sela uma confissão alheia. Virou-se para Benta, os olhos pedindo tradução.
— A senhora entendeu o que ele quis dizer?
Benta suspirou. Ajeitou o lenço com um gesto lento, quase maternal.
— Entendi, Bá. O moço disfarça nome, intenção e até remorso… Mas acha que um quadro na parede diz mais sobre mim do que os silêncios que escolhi pendurar.
Bartira deu uma risadinha contida, como quem sente cócegas no meio da incredulidade.
— Desse jeito, Dona… daqui a pouco vão dizer que a senhora é museu!
Benta sorriu com gosto:
— E olhe lá, Bá… se eu for museu, tem muito homem por aí que devia pagar ingresso pra aprender a calar.
Ambas riram. Riram como quem tira o sal do mundo com colher de pau. Como quem sabe que rir é o último luxo das que sobreviveram a tudo sem deixar de se pentear.
No canto da sala, o relógio tocou suas badaladas com um certo desdém.
E a noite, enfim, fechou a cortina.
Sem pressa.
Sem presságio.
Só sombra.

